Não me venham com o sermão da juventude,
esse presépio de carne embalado em celofane.
O tempo lambe-me o rosto — e eu rio,
porque há incêndios que só a idade acende.
Chamam-me velha — e bendigo o insulto,
que é flor nascida do medo dos meninos grandes.
Querem-me dócil, apagada, dobrada,
mas o meu riso é faca que não enferruja.
Trago nas rugas a geografia vivida:
cada sulco, uma batalha;
cada mancha, uma metáfora.
Não tenho prazo de validade —sou na língua a eternidade
que diz o que vos escandaliza.
Senhores do espelho,
metam as vossas normas no bolso das calças!
A minha pele é um poema que já não pede desculpa.
O que chamam de decadência, eu chamo de faculdade.
E quando me quiserem calar com flores de plástico,
hei de dançar sobre o vosso ventre —
de salto alto, rímel gasto e a alma incendiada!
Maria Azenha
(2025,Novembro,11,Lx)

