Por ELISA SCARPA
Vinde —— Vinde
Coelhos da NATURóLÊNDEA
Brancas bolas fofas de neve
Ligeiras belezas a correr
Na insânia do sol
Ante as urzes
No sopro
Dos zénites
Zéfiros
Alados.
Vinde —— Vinde
Entes da NATURóLÊNDEA
Animais de pura candura
Urdiduras pesadas
Com almas
Em desânimo!
Vinde ——- Vinde
Coelhos da NATURóLÊNDEA
Rápidas flechas de olhos
Ardentes a atravessar
O fogo-frio.
_ Não vos dividais,
Esperai de peito-feito
As inclinações do pânico.
E não penseis
Que os seres afins
Do Bom-Fim
Não estão do vosso lado!
Que a pólvora sairá
Dos abetos e dos carvalhos
E da funda terra
Que tristeza arrota
Para vos dar o que
nas entranhas treinou
por tão delongado momento.
Os que sabem viver são ágeis
Descem no escuro
Para da mina
Arrancarem
O que os outros
Com gargalhadas
Nem subtis
Nem gentis vão
Capturar.
Lêndea é esta natureza
Que de mim me quer
Também matéria.
Armou-me de presas
Resistentes
Deu-me
Pele-fúria
Roupa-rapace
Força
De forca
Conselho
De fim:
Aniquila
Desembainha
A sórdida
Espada
Da vitória
Fere!
São estes animais,
Os tais,
Tão distintos
Dos mais!
Inventam
e presumem
Os outros.
Atribuem-lhes
Chefes
Na variedade
das mãos
situam
o prazer infindo
de apertarem
as gargantas
até
que o fôlego da
fundação
soçobre.
_ NATURóLÊNDEA
Diz-me como agir!
A que horas chegar ao emprego
A que horas sair do emprego
A que horas dar o espectáculo do
Amar
E o outro vário-extravagante-vário
Do ódio-raiva, rage, râge, rabbia!
Lustre ostentatório
No vasto salão que é o
PLANETA TERRA.
Implacáveis botões
Que se accionam
Montanhas que cobrem
Os que já foram aflitos
E passaram a quedos letais
Caminhando nas sombras.
Não queriam eles, ser puros
Espíritos?
A lêndea natureza
Dos irmãos de espécie
A essa clareza de definição
Os determinou:
Ser desrazão para ser poder.
Vinde —— vinde
Coelhos da NATURóLÊNDEA
Secundar o bode-expiatório
Que já entrou em palco.
Olhos vítreos com medo dos apupos
E na panóplia dos insultos
Estaca os cascos.
Não abdica de ser apedrejado
Até
Tombar
No palco.
E são os coelhos
da NATURóLÊNDEA
Naturólêndea que
o tiram da arena,
DESFEITO.
Foi a natureza, a incontornável
Natureza, dizem
Que o desfez.
Antes de sair do palco,
Ainda fala e diz:
_”Na Síbéria não há palmeiras.”
O que quis ele dizer com esta frase?
Que na terra só há terráqueos,
Criaturas desta terra, rebeldes
De pacotilha,
Cuja sabedoria maior
É fazer cumprir a
Sina
do DESFAZER?
Os esqueletos transitam aos pares:
Entrechocando as tíbias e os perónios,
Os fémures e as ulnas, as costelas e
Os crâneos.
Seres afins
Despenteados, sem carne
Ou hálitos, defecados
Pelo imenso nada da ágil
E extensa fenda que engole
Os naturais.
Seres afins,
E os ditos,
São aqueles que já não são.
Afastem-nos da fecunda facécia,
Que é lutar pelo Tal, que tem
As costas largas, e há quem
Pense que está em todo o lado.
_Vinde —- vinde
Coelhos da NATURóLÊNDEA
Empalar tamanhos animais!
Que eles sejam bandeiras de mau
Cheiro, que atraiam as
Moscas e os abutres, as formigas
E as hienas.
Que as câmaras de vídeo
Sejam vazadas pelas
Lentes ávidas da Natureza
Dos que não respiram!
Vinde naturais da Natureza!
E se o humano é o piolho
Que suga o humano, bastará
Ignorar a lêndea?
Às pedras caberá contar
O conto do tempo das fábulas
Em que os animais falavam
E os homens tinham emudecido,
Não falavam _
Porque eram finalmente
Mais do que
Animais.
NATURóLÊNDEA
Estarei aqui,
Na lêndea,
Pronta a eclodir?
Bodes-expiatórios
Respiram
No meu pescoço
As passadas
Historietas
Da História
E a natural frase
De natureza exposta:
_ Sempre foi assim!
E não vou escrever
A 2ª parte desta sentença _
Não vou!
Procuro um jardim,
Não um Éden sem
Insectos que picam
E pivetes
Bio-desagradáveis.
Mas
Um jardim
Real
Em que sinta os
Lilases.
Lilases
Com cheiros de açucenas
Açucenas com cheiros de salmão
Salmão travestido de courgette.
Sou carne mecânica
Teclo-me
Em esforço de memória.
Os dedos curto-circuitos
Avançam entre lilases
Courgettes e écrans.
Avançam em busca
De um novo cheiro.
Permaneço em
Busca
De uma nova
NATUREZA!
De elisa scarpa


