MARIA AZENHA
NO AVIÃO DO JUIZO FINAL
Morro muito.
Morro infinitamente.
Morro para perguntar pelos nomes do meu pai
e dos meus irmãos.
Tenho a boca cheia de fogo,
fogo que arde a partir do crânio das montanhas.
O meu coração é um vulcão alucinado.
Escorre sangue para um lugar parecido com o céu.
À entrada está uma aranha.
Recita todo o tempo o evangelho de Caim e Abel.
Os meus irmãos e o meu pai estão separados por uma sentinela.
A minha obsessão é encontrar Deus
no avião do juízo final.
EM TEMPOS DE GUERRA
Quando era criança pedia a minha mãe:
“Mãe, compra-me a Paz.”
E ela fingia não ouvir
e pegava-me ao colo.
E eu esquecia que estávamos em guerra.
Depois, sem saber por quê, desatava a escrever
estórias que falavam de crianças com medo.
Agora, quando vou ao supermercado,
compro maçãs e um quilo de arroz
e vejo toda a gente de rosto tapado.
Há muito tempo que minha mãe não sabe de nós.
MARIA AZENHA E M. CÉU COSTA
Foto de Elisa Scarpa
A SOMBRA DE ALICE
A criança abriu o armário da casa de banho
como quem abre um livro.
Havia comprimidos
brancos
verdes
amarelos
como pastilhas de farmácia.
A criança sabia
para que serviam.
Sabia
que os adultos diziam:
— toma isto, que passa.
A criança tinha muitas coisas
que não passavam.
A tristeza
não passava.
O barulho dentro da cabeça
não passava.
A criança contou os comprimidos
como quem conta memes.
Um
dois
três
Depois pensou
que talvez fosse melhor
tomá-los com um copo de água.
E ficou deitada num banco de jardim
a ouvir para sempre o silêncio.
O QUIOSQUE DA SENHORA EMÍLIA
Deram à senhora Emília um quiosque,
porque o outro, diz ela,
foi tragado por um automóvel.
A Emília conta histórias
como quem dobra jornais:
uma mentira aqui, outra ali,
todas bem dobradinhas,
para que ninguém perceba ninguém.
Os transeuntes olham o quiosque
e escutam os seus relatos de tragédia
como se fossem manchetes do dia.
Mas eu sei:
o automóvel é só desculpa;
o que ela quer mesmo é o quiosque da mãe,
um café para reunião de pessoas e cães.
E assim vende jornais
entre capas de papel e vento,
com a mesma dedicação e enganos.
O PAÍS QUE FICOU NO QUINTAL
Ontem sonhei com o Velho do Restelo.
Estava no psiquiatra a tomar café
e a queixar-me da pátria.
Não é culpa minha,
Portugal é um velho teimoso
que cheira a naftalina, como os meus avós
que se lembram de Dom Sebastião,
que foi brincar à guerra e se esqueceu de voltar.
Sinto uma tristeza que não passa.
Então
fecho-me nos Jerónimos, com muito frio,
a comer pastéis de nata.
Não há ninguém
que me console o coração.
Os meus avós ainda choram no quintal,
para não dar nas vistas
a Portugal,
que ninguém sabe onde está.
O QUE É A PAZ
O que é a Paz?
Onde está a sua casa?
Onde está o seu mercado?
Já tem escritório?
Já entrou na bolsa?
A Paz, ontem, valia milhares de mortos…
Alguém saberá onde estão os seus ovos?
Ninguém sabe, pois não?
A Paz, atarefada com a guerra, abre a sua própria cova:
Lá, esconde os seus ossos.
Ouvi, então!
Agora mesmo rebentou uma folha na primavera.
Só uma criança a viu.
Porque esperam?
RITUAL PARA UM (P)RESIDENTE
𝐏𝐫𝐞𝐥𝐮́𝐝𝐢𝐨 – 𝐄𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐧𝐨 𝐓𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐝𝐨 𝐏𝐚𝐥𝐚́𝐜𝐢𝐨
O Presidente entra descalço, deixando os sapatos no frigorífico.
Cumprimenta o teto com três inclinações e sussurra a senha secreta do vento.
As lâmpadas são cumprimentadas com toques rítmicos de dedos, como sinos invisíveis.
𝐏𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐑𝐞𝐜𝐞𝐩𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚𝐨 𝐏𝐨𝐯𝐨
O “povo”, composto por peixes sem cauda e sombras que se acreditam humanas, é apresentado.
O Presidente oferece pedaços de sol e vento, distribuídos com colher de pau.
Todos os presentes batem palmas com mãos imaginárias para selar o pacto da manhã.
𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 (De) 𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐀𝐬𝐬𝐢𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐃𝐞𝐜𝐫𝐞𝐭𝐨𝐬 𝐌𝐢́𝐬𝐭𝐢𝐜𝐨𝐬
Cada decreto é lido em voz baixa para um elefante escondido atrás do saco do pão.
A assinatura é feita com tinta de nuvem, acompanhada de um murmúrio ao sol.
Caso um decreto tente escapar, o vento é chamado como guardião do ritual.
𝐓𝐞𝐫𝐜𝐞𝐢𝐫𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐂𝐞𝐫𝐢𝐦𝐨́𝐧𝐢𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐁𝐚𝐧𝐝𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬
As bandeiras das borboletas são soltas ao ar.
O Presidente realiza a “Dança do Arco-Íris” para assegurar a fidelidade das cores.
Cada borboleta que voa em direção ao mar recebe bênçãos silenciosas.
𝐐𝐮𝐚𝐫𝐭𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐌𝐞𝐝𝐢𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐂𝐨́𝐬𝐦𝐢𝐜𝐚
O Presidente senta-se num trono de algodão-doce.
Conta histórias às estrelas e ouve os seus conselhos sobre justiça e sonhos.
O vento é convidado a assinar os pensamentos mais importantes.
𝐐𝐮𝐢𝐧𝐭𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐁𝐚𝐧𝐪𝐮𝐞𝐭𝐞 𝐝𝐨𝐬 𝐈𝐦𝐩𝐨𝐬𝐬𝐢́𝐯𝐞𝐢𝐬
Sopa de vento é servida com talheres de prata.
Elefantes invisíveis e tartarugas cantoras participam do banquete.
Rir e chorar simultaneamente é considerado um ato de sabedoria elevada.
𝐒𝐞𝐱𝐭𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐏𝐚𝐬𝐬𝐞𝐢𝐨 𝐑𝐢𝐭𝐮𝐚𝐥 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐉𝐚𝐫𝐝𝐢𝐦 𝐅𝐚𝐧𝐭𝐚́𝐬𝐭𝐢𝐜𝐨
Flores que falam em dialetos de borboletas guiam o Presidente.
As sombras e as pedras recitam segredos antigos do governo.
Cada passo é acompanhado de reverência ao sol deslizante.
𝐒𝐞́𝐭𝐢𝐦𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐕𝐢𝐠𝐢́𝐥𝐢𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐂𝐨𝐢𝐬𝐚𝐬 𝐈𝐦𝐩𝐨𝐬𝐬𝐢́𝐯𝐞𝐢𝐬
O Presidente treina sapatos invisíveis e ensina os relógios a dançarem.
Os Elefantes oferecem invisíveis conselhos diplomáticos.
As Borboletas e as nuvens deliberam sobre as cores oficiais das bandeiras.
𝐎𝐢𝐭𝐚𝐯𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐌𝐞𝐝𝐢𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐍𝐨𝐭𝐮𝐫𝐧𝐚
O Presidente toma banho de luar numa luz esclarecida.
Conta estrelas para preparar a mente para os sonhos de governo.
Ritos finais incluem beijo e reverência ao teto, selando o dia com energia cósmica.
𝐍𝐨𝐧𝐨 (De)𝐆𝐫𝐚𝐮 – 𝐒𝐨𝐧𝐨 𝐏𝐫𝐞𝐬𝐢𝐝𝐞𝐧𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐞 𝐓𝐫𝐚𝐧𝐬𝐦𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐏𝐨𝐝𝐞𝐫
Durante o sono, ele entra no “sonho do governo”, onde todas as decisões impossíveis são aprovadas.
O vento, os elefantes, as borboletas e as nuvens mantêm a ordem do reino enquanto o Presidente repousa.
Ao amanhecer, o ciclo reinicia-se, perpetuando o ritual infinito do governo futuro.
𝐒𝐞𝐧𝐡𝐚 𝐅𝐢𝐧𝐚𝐥
“O impossível é rotina, e o absurdo é lei.”
Quem pronunciar esta frase com reverência, completa o ritual e alcança a Maestria (P)residencial Absoluta.
MANIFESTO POÉTICO SOBRE A LINGUAGEM
Um escritor gostava de dizer poesia em voz baixa.
Queria saber para onde iam as palavras quando as pronunciava.
A sensação era de que elas iam parar a outros lugares.
E, quando se calava, os sons espalhados eram como um único som.
Foi decidido atribuir-lhes o Prémio Nobel da Palavra Quântica.
Daí em diante, passaram todos a dizer uma única palavra,
porque era a mesma.
18 . Abril . 2026
Convento de São Domingos
João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)
ORGANIZAÇÃO
Maria Estela Guedes . Elisa Scarpa . M. Céu Costa . Rui Grácio, Maria Azenha



