MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA
O Museu Vivo e a Areia do Tempo
Foi no dia do meu aniversário que o Major Zinga e eu visitámos o IFAN, instituição que me é familiar dos tempos em que tinha a meu cargo a biblioteca do Museu Bocage, um dos que fazem parte do Museu Nacional de História Natural, em Lisboa. Mais familiar do que a instituição, que só conheci fisicamente no dia 21 de Maio passado, é o seu Bulletin de l’IFAN, revista científica que permutávamos com os Arquivos do Museu Bocage. Foi por isso com alguma emoção que entrei no recinto, cercado por pequeno arboreto, de espécimes identificados, convidativo ao repouso dos alunos e visitantes nos seus bancos com cobertura protetora do sol penetrante.
Muito convidativos também, agora à contemplação estética, os vertígios de instalações artísticas de ar livre. A árvore de colar, então, foi especialmente atrativa. Na conversa com Meissa, o artista da areia, documentado em vídeo, fiquei a saber que o tema dos gémeos era comum na arte senegalesa. Meissa tem um quadro exposto com o tema, em que os gémeos se assemelham mais a siameses. A simbologia parece ser a do andrógino, facto confirmado pelo nosso co-autor Alex Zinga.
O GÉMEO E/OU SIAMÊS
Esta conceção da androginia reflete-se profundamente na produção escultórica e pictórica da região. As representações artísticas de corpos fundidos, dualidades espelhadas ou figuras antropomórficas que misturam características sexuais evidentes não procuram retratar uma anomalia, sim a harmonia cósmica absoluta e a fecundidade espiritual. Na arte contemporânea senegalesa, este conceito do duplo indivisível transmuta-se numa poderosa metáfora identitária e psicológica. O siamês surge como a imagem da coexistência de múltiplas dimensões do eu, ilustrando as tensões e os diálogos inevitáveis entre a herança ancestral e a modernidade, o eu e o outro, unidos de forma indissolúvel na mesma carne cultura.
Longe de serem interpretadas como meras anomalias biológicas, as figuras gemelares fundidas representam o arquétipo mais límpido da androginia mítica. Segundo os estudos clássicos preservados nos boletins do instituto, as divindades primordiais partilhavam naturezas duais e andróginas. A manifestação escultórica de dois seres que dividem a mesma matéria e o mesmo tronco corporal simboliza a harmonia universal absoluta, anulando a fragmentação dos sexos e dos géneros para repor a plenitude do ser original. Na visualidade moderna senegalesa, este siamês conceptual transmuta-se numa metáfora sobre a própria pele cultural do país, onde a matriz ancestral e os diálogos da modernidade coexistem de forma indivisível e indissociável.
O IFAN E O LEGADO CIENTÍFICO EM DAKAR
O IFAN – Institut Fondamental d’Afrique Noire Cheikh Anta Diop é uma das mais prestigiadas e antigas instituições de investigação científica, cultural e histórica da África Ocidental. Fundado originalmente em 1936 sob o domínio colonial francês como Institut Français d’Afrique Noire, o seu propósito inicial centrava-se no estudo antropológico, linguístico e biológico dos povos sob administração francesa...
Após a independência do Senegal, a instituição mudou de nome e, desde 1960, está organicamente integrada na Universidade Cheikh Anta Diop (UCAD). Esta transição consolidou o instituto como um farol de produção de conhecimento gerido e orientado pela própria intelectualidade africana...
As instalações históricas do antigo IFAN, situadas no coração de Dakar (no bairro de Plateau), encontram-se hoje inteiramente dedicadas a funções museológicas de relevo internacional. Entre os espaços que ocupam este complexo histórico destaca-se o emblemático Museu Théodore Monod de Arte Africana, cujo nome homenageia o naturalista francês que foi o seu primeiro diretor...
A imponente fachada colonial de estilo neo-sudanês deste edifício — perfeitamente visível nas fotografias da nossa comitiva — será o foco central de uma página exclusiva a apresentar brevemente, na qual exploraremos a fundo o seu espólio de máscaras, rituais e arte contemporânea da diáspora.
A FACHADA DO MUSEU
O edifício que hoje acolhe as coleções de arte africana, construído na década de trinta em pleno coração administrativo de Dakar, ostenta uma das fachadas mais emblemáticas da arquitetura neo-sudanesa da região. Com as suas linhas geométricas imponentes, as balaustradas rendilhadas e as colunatas de tons quentes que emolduram as escadarias exteriores, a estrutura arquitetónica desenha o primeiro limiar de uma viagem que visa reconciliar a documentação histórica com o pulsar vivo da criatividade contemporânea. É no interior deste complexo, sob a tutela científica da Universidade Cheikh Anta Diop, que se preserva a memória material e se fomenta o debate teórico sobre as identidades da diáspora africana. Esta mesma monumentalidade física serve de antecâmara para a reflexão em torno de conceitos nucleares da cosmogonia da África Ocidental, como o tema dos gémeos siameses na tradição artística da região.
O JARDIM
O jardim do IFAN em Dakar não é apenas um espaço botânico; é um ecossistema estético, um verdadeiro museu vivo. Como um arboreto secular que respira a história profunda de África, as suas copas e trilhos serviram e continuam a servir de cenário para dinâmicas exposições de ar livre, onde criadores locais e internacionais interagem diretamente com a natureza, diluindo as fronteiras rígidas que habitualmente separam a arte das paredes estéreis de um museu tradicional...
Foi precisamente neste cenário verdejante, no dia do aniversário da nossa Diretora Maria Estela Guedes, que o jardim revelou a sua magia mais humana. Entre as árvores exóticas e a imponente “árvore de colar” — uma visão absolutamente sensacional que parece carregar adornos na sua própria estrutura orgânica — encontrámos Meissa...
Meissa, artista que domina a técnica ancestral e minuciosa da pintura com areia, transforma os grãos da terra em narrativas visuais texturadas e vibrantes. Num gesto de pura comunhão artística e celebração daquela expedição ao Senegal, Meissa ofereceu um dos seus quadros de areia à Estela. A obra imortaliza não apenas a mestria do pintor, mas a própria essência do lugar: uma fusão indissolúvel entre a matéria do solo africano, o pulsar artístico e a memória afetiva que une a comitiva do Triplov a este pedaço sagrado de Dakar.
A ÁRVORE DE COLAR
Imaginemos este diálogo constante entre o património natural e a vanguarda humana: ali, cada tronco, raiz e grão de areia pintado conta uma história de resistência, beleza e partilha cultural.
DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL












