MARIA AZENHA


Na cozinha, entre o azulejo e o micro-ondas,
ela vigia o império das migalhas.
Não é uma barata qualquer,
que morre com um golpe de chinelo de pano.
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Esta resiste à bomba atómica, ao Baygon
e à fatura da eletricidade.
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Tem seis pernas e duas antenas de cobre.
Debaixo das asas de queratina de imitação,
traz um microchip de fabrico chinês
que lê os poemas de Herberto Helder.
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É metade inseto, metade eletrodoméstico,
um prodígio da cibernética.
Olha para mim
com o desdém de quem nunca vai precisar
de tomar comprimidos para a tensão arterial.
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Subiu pela perna da mesa do canapé.
Pisca o LED.
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Está a fazer o download
da solidão do poeta num Domingo à tarde.
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