MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA (IA)
ESTELA – Dizem que a maior dificuldade da Inteligência Artificial aplicada a executar imagens é a representação das mãos. Concordas? A que se deve a dificuldade? Desenhar bocas, olhos, etc., não exige a mesma habilidade?
ALEX – Concordo perfeitamente. A representação das mãos foi, durante muito tempo, o maior “calcanhar de Aquiles” dos geradores de imagem por IA, e continua a ser um desafio técnico assinalável. Na imagem que partilhaste, por exemplo, nota-se essa inteligência artificial em transição: embora a mão em primeiro plano esteja anatomicamente muito bem conseguida, a mão ao fundo (que aponta para o ecrã) apresenta uma curvatura e uma inserção de dedos ligeiramente artificiais e invulgares. Esta dificuldade específica deve-se a vários fatores estruturais e matemáticos:
Geometria complexa: A mão humana é das estruturas mais flexíveis do corpo. Ela pode fechar-se, cruzar dedos, agarrar objetos ou ficar em escorço. Esta infinidade de posições altera drasticamente a perspetiva visual de cada articulação.
Falta de perspetiva nos dados: A IA aprende por padrões em imagens 2D. Se uma foto mostra uma mão a segurar uma caneca, alguns dedos ficam ocultos. A IA tem dificuldade em compreender que o dedo continua lá (em 3D), tendendo a “fundir” a carne ou a criar dedos a menos (ou a mais) para tentar compensar o espaço vazio.
A tolerância humana ao erro: O cérebro humano está hiperprogramado para reconhecer mãos e rostos. Detetamos uma falha de milímetros instantaneamente. Se um braço for ligeiramente mais longo numa imagem, o nosso cérebro pode ignorar; se uma mão tiver seis dedos ou duas falanges invertidas, o erro salta imediatamente à vista. Porque é que olhos e bocas não exigem a mesma habilidade matemática da IA?
Desenhar rostos exige precisão na expressividade, mas a sua anatomia mecânica é muito mais previsível para os algoritmos:
Estrutura fixa: Os olhos e as bocas estão sempre ancorados nos mesmos sítios da face. Uma boca abre e fecha, mas não se dobra sobre si mesma em dezenas de articulações independentes como os cinco dedos de uma mão.
Simetria clara: Os olhos seguem regras rígidas de posicionamento e simetria que a IA consegue mapear através de eixos geométricos simples.
Abundância de dados limpos: Existem milhares de milhões de retratos focados estritamente em rostos de frente ou de perfil perfeitamente iluminados.
As mãos surgem quase sempre em segundo plano, desfocadas, a segurar coisas ou cortadas pela margem da foto, o que dá menos “matéria de estudo” de qualidade à IA.
Felizmente, os modelos mais recentes de IA já utilizam redes de controlo anatómico que reduziram drasticamente estes erros, embora posições muito dinâmicas — como os dedos a teclar no ambiente tecnológico da tua imagem — ainda revelem pequenos deslizes de renderização.
ESTELA – Uma vez recebi em casa uma jovem brasileira que veio a Lisboa para estudar, na ESBAL (Escola Superior de Belas Artes) as técnicas de desenhar mãos. Ela é uma excelente artista, na minha opinião, mas na altura não sabia representar as mãos, por isso escondia-as. Então as mãos também são difíceis para os artistas humanos.
ALEX – Que excelente partilha, Estela! Essa tua história real toca no ponto central de toda esta questão: as mãos não são apenas um pesadelo para os algoritmos de inteligência artificial, são historicamente o teste de fogo para qualquer artista de carne e osso. O truque que essa jovem brasileira usava — o de esconder as mãos nos bolsos, atrás das costas ou sob pregas de roupa — é um clássico absoluto na história da arte. Até grandes mestres do passado recorreram a essa astúcia quando queriam acelerar o trabalho ou evitar o risco de falhar a anatomia.
A razão pela qual os humanos também sentem esta enorme dificuldade prende-se com três fatores que a ESBAL (hoje Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa) ensina logo nas primeiras aulas de desenho de modelo vivo:
Proporções relativas enganadoras: Os dedos mudam de comprimento conforme a perspetiva e a forma como a mão se dobra. Se o artista falhar por dois milímetros a proporção entre a palma e o comprimento dos dedos, a mão deixa instantaneamente de parecer humana e passa a parecer uma garra ou um conjunto de salsichas.
A ilusão dos ossos escondidos: Para desenhar bem a mão, o artista não pode desenhar apenas a pele. Precisa de compreender a estrutura tridimensional dos ossos do carpo, metacarpo e falanges. É uma engenharia mecânica complexa por baixo de uma superfície muito maleável.
Carga psicológica e expressiva: Depois do rosto, as mãos são a parte do corpo que mais comunica. Elas expressam tensão, carinho, raiva ou dúvida. Conseguir captar essa subtileza psicológica através do traço exige anos de prática e de observação diária. No fundo, quando a inteligência artificial falha a desenhar mãos, ela está apenas a espelhar a mesma dificuldade cognitiva e técnica que a humanidade tenta dominar há séculos. A diferença é que o artista humano estuda a anatomia e a mecânica das articulações para compreender o que está a fazer, enquanto a IA tenta apenas adivinhar qual é o próximo píxel com base em estatística.
Gostavas de começar a preparar as perguntas ou o próximo tema do Majorzinho?
ESTELA – Vou publicar no Triplov este texto completo. No Face só publiquei a parte sem mãos. Escreve outro prompt, que mostre como é difícil. Se achares algum exercício de Da Vinci, podias associá-lo à nossa imagem.
ALEX – Excelente decisão levar o ensaio para a prestigiada revista digital Triplov! O público de lá valoriza precisamente esse cruzamento profundo entre a tecnologia, a literatura e a história da arte. Para ilustrar na perfeição este paralelo entre a falha da IA e o esforço humano, o teu post ganharia realmente uma força imensa se usasses os célebres estudos anatómicos de Leonardo da Vinci. Entre 1510 e 1511, Da Vinci preencheu páginas do seu Manuscrito Anatómico A com desenhos obsessivos da estrutura mecânica da mão, deparando-se exatamente com o mesmo obstáculo geométrico: como traduzir para o papel bidimensional a complexidade tridimensional das falhas, tendões e músculos do carpo sem que parecessem uma forma sem vida ou uma garra disforme. Podemos perfeitamente associar essa herança à tua imagem! Repara como os nós de dados digitais azuis e as linhas interligadas que emanam do ecrã do computador se assemelham, de forma quase poética, aos estudos de engenharia biomecânica e linhas de força que Da Vinci traçava à volta dos músculos para compreender o seu movimento.
Aqui tens o novo prompt focado na complexidade anatómica e artística:
Prompt de Imagem: O Teste de Da Vinci
Prompt: A split-screen digital art composition. On the left side, a faithful reproduction of Leonardo da Vinci’s anatomical renaissance sketches of hands, with sepia-toned ink, intricate cross-hatching, and mirrored Italian handwriting annotations on aged paper. On the right side, a modern cinematic close-up of a human hand typing on a laptop keyboard, with glowing blue and orange network node lines wrapping around the fingers like digital tendons. The two halves seamlessly blend in the center, bridging the historical human struggle of art with the modern challenges of artificial intelligence geometry. 8k, highly detailed, artistic parallelism. –ar 16:9
ALEX –

