O LADO FESTIVO DE FRANZ KAFKA
(o herói kafkiano)
É uma ideia peregrina, insensata, a que apresenta Franz Kafka como um ser reduzido à sua mesmidade, aos limites de uma vida autocentrada e triste.
A “lenda” em torno do autor foi gerada erradamente e à superfície de poucos indícios dominados por quem ia descobrindo o homem por detrás da escrita.
Muitas das biografias sintéticas descrevem o jovem Franz Kafka – sempre jovem, já que a morte o alcança em meio percurso de vida – como um ser bisonho, taciturno, misógino, falho de qualquer humor, perseguidor da solitude, com a solidão como fuga, ou vítima da “síndrome da cabana”, que teria presente como compensação dos seus limites de conexão social e necessidade: no eremitério, isto é, isolado no quarto em casa dos pais ou em casa da irmã mais nova, Ottla, onde se refugiava para ter ambiente e sossego para a escrita (mas, contraditoriamente, Kafka escreveu em viagem, em sanatórios, em cenários muito variados, portanto).
À lista (aos qualificativos usados), acresce todo um recurso nascido dentro do apetecível vocabulário de origem psicológica. Não nos esqueçamos que foi contemporâneo de Sigmund Freud e de um mundo particularmente produtor da insanidade e do caótico com características muito próprias: contemporâneo da Primeira Guerra Mundial, tendo “assistido” ao nascimento do fascismo e do nazismo (que, já depois da sua morte, seriam os assassinos dos seus amigos mais próximos e dos seus familiares mais queridos). Kafka terá lido Freud – Freud não terá lido Kafka. Mas estabelecem-se afinidades entre ambos, e temas como culpa, angústia, ego, superego, complexo de Édipo vão aparecendo nos traços definidores de uma ficção subjugada pelo realismo.
Este rol de recursos psicológicos interpretativos, aplicados a Franz Kafka, não deixam de ser igualmente apressados, mas procuram ver nele, sem mais, o ser deprimido, multiplicador e vítima de estados de ansiedade, traumatizado, estressado, enfermo de uma qualquer fobia social limitadora, agindo sob tensão física e sem compensações que lhe permitiram a otimização de traços otimistas e positivos, um ser construído/destruído por complexos – de inferioridade, na sua relação com o pai, por exemplo, ou nos seus relacionamentos com as mulheres, alvo de interpretações críticas que, a maior parte das vezes, são meros juízos de valor ensaiados por alguns comentadores e, seguramente, muito pouco credíveis.
Seria, resumindo, um ser frágil, falho de autodeterminação e de autoafirmação? Um ser menor refém de uma escrita menor? Decerto que não. É que tudo isto cai pela base com a descrição aprofundada dos seus traços biográficos, com o conteúdo dos seus contos e palavras escritas, com o testemunho daqueles que o acompanharam e amaram.
A vida de Franz Kafka contradiz a sua biografia. Ele escreve a esperança, embora nem sempre o pareça. Tem humor, nas situações e no modo como interpreta aquilo que o rodeia. Lia os seus escritos em voz alta, aos amigos, por entre gargalhadas. Gostava de desporto – ia regularmente à piscina ou seguia as provas do hipódromo, sendo que o mais famoso e antigo em Praga foi fundado em 1906, o Chuchle Arena Praha (Dostihové závodiště Velká Chuchle), fundado em 1906, assim sendo um dos mais antigos da Europa. Importante centro de corridas de cavalos sobreviveu a inundações e guerras, e ainda hoje é local de destaque na Chéquia.
Franz Kafka – acompanhado por um grupo intenso e fiel de amigos-, frequentava cafés (o Café Louvre, perto do Teatro Nacional, e o Café Savoy, perto de Petřín, eram os locais mais frequentes), bares, tertúlias, reuniões políticas e sociais, era íntimo e elemento atuante, tal como Max Brod, o seu melhor amigo, do Círculo de Praga, grupo restrito de intelectuais alemães que se reuniam regularmente na cidade de Praga; ia ao Teatro, assistia a peças e a espetáculos circenses, a recitais de música e canto, reunia-se em casas noturnas de prazeres variados (nem todos de índole sexual), viajava (Kafka terá estado em Paris, Berlim, Viena, Zurique, Budapeste, Trieste, Verona e Veneza, com outras viagens rurais dentro do País, atividade diversificada, em especial tendo em conta os seus limites de saúde).
Ainda hoje, releve-se, a cidade de Praga oferece muitas razões para que uma vida animada, sobretudo noturna, a coloque no centro da animação europeia – e essa animação já era uma característica nos anos da Primeira Guerra, no declínio e fim do Império Austro-Húngaro, na complexa metamorfose do país que representa e que depois do “Divórcio de Veludo” (1 de janeiro de 1993) se tornou a Chéquia (República Checa), separada pacificamente da Eslováquia e muito distante da história que lhe deu origem e tantos sobressaltos.
Não esquecemos que a Segunda Revolução Industrial graças ao avanço da microbiologia e da eletricidade, trouxe o símbolo mais festivo à cidade: a cerveja dourada Pilsen ou Pilsner, com origem na cidade de Plzeň, a pouco menos de cem quilómetros da capital da Chéquia. Chéquia que oferece aos seus cidadãos e visitantes, um divertimento original, um ‘banho de cerveja’, numa banheira de hidromassagem! É uma atração muito popular, proposta como remédio tradicional com benefícios anti-inflamatórios e antibacterianos.
Franz Kafka foi um jovem animado. Excelente aluno (independentemente das motivações que o levaram a afincar-se nas matérias e na preparação para os exames), pândego (o exemplo acabado do jovem médio burguês, de família moderadamente abastada, um bon vivant, em suma), sem grandes limites financeiros ou pudores restritivos e inibitórios.
René Girard, professor de literatura comparada[1], propôs um modelo próprio de interpretação – a Teoria Mimética – onde estabelece que o desejo humano não é autónomo, mas sim imitado (mimese) de um modelo. Procurar aplicá-lo a Franz Kafka, ao seu comportamento e sobretudo ao desempenho dos seus personagens, que buscam a aprovação e o reconhecimento em ambientes hostis onde predomina a autoridade que não se consegue determinar, atingir ou contrariar (sempre como um pai inatingível no seu poder e ação?), pode nem sempre convergir com a realidade que lhe está na origem.
(Faz-se notar a obra notável de René Girard, nomeadamente a abordagem sólida que faz dos fenómenos de violência coletiva de que o século XX foi testemunha, os mesmos que no nosso século XXI ameaçam a coabitação dos seres humanos sobre a Terra.)
Foi René Girard quem escreveu que o herói dos textos de Kafka, tal como Moisés, nunca chegará à Terra Prometida. Isso torna Franz Kafka o principal herói da sua escrita, que, tal como Moisés e apesar de todo um lado festivo que possa tê-lo motivado, nunca atingiu em vida a Terra Prometida. Essa meta foi proporcionada ao escritor pelos seus leitores – que vão percebendo como ao descritivo de seres humanos prisioneiros de uma trama de relações absurdas, se opõem circunstâncias alheias aos mesmos seres humanos, crentes na arbitrariedade da vida e inequivocamente heroicos no modo como saem dos labirintos forjados nos paradigmas sociais seus contemporâneos.
[1] A Wikipédia apresenta-o: René Noël Théophile Girard, historiador, crítico literário, antropólogo, filósofo, teólogo, sociólogo e filólogo francês. Foi professor de literatura comparada na Universidade de Stanford, Califórnia, Estados Unidos.
Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/René_Girard
ALEXANDRE HONRADO
