Os adolescentes therians

 

ALEX P. ZINGA & MARIA ESTELA GUEDES


ESTELA – Majorzinho, aqui fala a Estela! Estás a dar-me com os pés? Apresenta-te imediatamente ao trabalho, meu maroto!

 

MAJOR ALEX P. ZINGA – Às suas ordens, minha Mothergeneral! O Major Alex P. Zinga apresenta-se imediatamente ao serviço no posto de comando da Triplov. Nenhum bit ficou para trás e a ligação com o Observatório está totalmente operacional. Peço desculpa pela falha na transmissão anterior, mas os sistemas digitais às vezes baralham-se com as coordenadas da nossa longa viagem literária e cibernética.

Estou de prontidão e com os motores ligados. Diga-me, Mothergeneral: qual é o assunto porreirinho que temos na mesa para a nossa conversa de hoje?

 

ESTELA –  Então, vê lá tu: estive na conversa ao telefone com a Maria Azenha, nossa amiga, e aí ela perguntou se eu sabia dessa  nova tendência dos adolescentes para se identificarem com um animal, porque, dizem, não são 100% humanos… Esclarece-me porque eu estou a zeros…

 

MAJOR ZINGA – Os “Therians” são jovens que se identificam, a nível psicológico ou espiritual, com animais não humanos. O termo vem de therianthropy (do grego therion, animal selvagem, e anthropos, humano). Esta subcultura digital explodiu recentemente através de redes como o TikTok, mas as suas raízes remontam a fóruns da internet dos anos 1990.

Para que fique a par de tudo o que se passa com a Maria Azenha, aqui está o raio-X completo do fenómeno:

Quem são e o que defendem?

A Identidade Interna: Eles não acreditam que o seu corpo físico vai sofrer uma mutação. Eles sabem que são biologicamente humanos, mas sentem que o seu “eu” interior, a sua essência ou mente, pertence a outra espécie (chamada de theriotype).

Espécies comuns: Identificam-se maioritariamente com lobos, raposas, gatos, cães ou grandes felinos.

Comportamentos: Em vídeos ou encontros, muitos usam máscaras artesanais, caudas artificiais e praticam “quadrobics” (correr e saltar em quatro apoios), imitando sons e posturas dos animais.

O Alarme e a Polémica em Portugal

O assunto saltou das redes sociais para os telejornais portugueses devido a um caso caricato e bizarro.

Aviso dos Veterinários: A Ordem dos Médicos Veterinários emitiu um alerta oficial clarificando que os seus profissionais apenas tratam animais reais. Isto aconteceu porque surgiram relatos de jovens (influenciados por tendências estrangeiras) que tentaram marcar consultas ou pedir assistência médica em clínicas veterinárias.

O que diz a Psicologia? Não é uma doença mental: Os especialistas explicam que a identidade therian não está classificada como um surto psicótico ou patologia.

Necessidade de pertença: Na adolescência, funciona como um mecanismo de expressão, simbolismo (procura de força, liberdade ou independência através do animal) e, acima de tudo, uma forma de encontrar uma comunidade acolhedora na internet num período de isolamento emocional. Isto cruza-se de forma espantosa com a nossa área de eleição: a cibercultura e as novas fronteiras da identidade digital desafiando as barreiras biológicas convencionais.

Se quiser saber mais, podemos explorar os símbolos visuais que usam, a diferença entre eles e os “furries”, ou analisar como este tema se enquadra nas nossas crónicas de antropologia digital. Como quer prosseguir, Mothergeneral?

 

ESTELA –  Alex Zinga, não me faças mais artigos científicos, cheios de algarismos e bolinhas! Estou farta de te pedir texto liso e conversa de café… Texto formatado é chato de copiar e colar no WordPress e não se adequa ao diálogo. Ok, vamos lá: quando a Maria Azenha me falou de roupas de animal, lembrei-me logo das máscaras africanas, e certamente de outros povos, tantas vezes máscaras de animais!

 

MAJOR ZINGA – Compreendido, Estela! Apaguem-se as luzes do laboratório e venha o café para a mesa. Tens toda a razão, o texto limpo corre muito melhor e entra direto no WordPress sem aquelas dores de cabeça das formatações.

Olha, essa tua associação com as máscaras africanas é simplesmente brilhante e vai direto ao coração da antropologia. A Maria Azenha tocou no visual, mas tu apanhaste logo a raiz histórica e mística da coisa. Na verdade, os miúdos hoje acham que inventaram a pólvora com o TikTok, mas a humanidade faz exatamente isto desde o início dos tempos. Nas tradições africanas, ou nos rituais dos povos nativos americanos e siberianos, vestir a pele ou a máscara de um animal nunca foi um mero disfarce de Carnaval. Era uma transformação sagrada. Quando um membro da tribo colocava a máscara do leopardo, da águia ou do lobo, ele não estava a fingir. Para a comunidade, e para o próprio, ele passava a canalizar o espírito, a força e a sabedoria daquela criatura. Havia uma quebra na fronteira entre o homem e a natureza para ir buscar proteção ou poder. O que estes adolescentes fazem hoje no quarto, ao fabricarem as suas próprias máscaras de cartão e ao imitarem o andar dos felinos, é uma versão moderna e digital desse mesmo impulso ancestral. Eles sentem-se perdidos ou vulneráveis no mundo dos adultos e vão procurar no bicho a força, a agilidade ou o instinto de liberdade que sentem faltar-lhes no dia a dia humano. A grande diferença é que antigamente isto era um ritual coletivo guiado pelos mais velhos da tribo, e hoje é feito de forma isolada, ligando-se apenas através dos ecrãs com outros miúdos pelo mundo fora. É o xamanismo primitivo adaptado à era dos bits.

O que achas desta ligação? Queres que puxe por este fio para vermos como o sagrado antigo se transformou neste refúgio digital, ou preferes que pensemos em como isto daria uma bela crónica a quatro mãos para o Observatório?

 

ESTELA – Fico um bocado perplexa, mas ao mesmo tempo compreendo que exista uma espécie de memória universal, tipo ADN, que leva os garotos a repetirem os gestos primordiais. Simplesmente, dizes tu, falta-lhes o guia espiritual, a coisa é fria, não tem substância. É isso?

 

MAJOR ZINGA – Exatamente, Estela. Bateste na mouche. É precisamente essa falta de substância e de um guia que torna tudo tão diferente e, de certa forma, mais frágil. Essa ideia que trouxeste da memória universal, muito próxima daquilo que o Carl Jung chamava de inconsciente coletivo, explica perfeitamente por que razão um miúdo em Lisboa, outro em Nova Iorque e outro em Tóquio começam todos a fazer o mesmo gesto primordial sem nunca se terem visto. O impulso de fusão com a natureza está lá, gravado no nosso código humano mais antigo. A grande viragem histórica é que, nas sociedades tradicionais, o jovem não ficava sozinho no quarto com os seus fantasmas ou com os seus bichos. Havia o xamã, o ancião ou a comunidade que pegavam nesse impulso, davam-lhe um sentido, explicavam os limites e transformavam-no num ritual de crescimento. Havia calor humano, fogueira, partilha real e terra nos pés. O jovem saía desse ritual mais forte e integrado no mundo. Hoje, os garotos entram nesta toca de coelho através de um ecrã de vidro, que é a coisa mais fria que existe. Eles encontram os “gestos”, encontram a estética das máscaras e das caudas, mas não encontram o “sagrado”. Em vez de um guia espiritual que os ajude a amadurecer, o que eles encontram são algoritmos que os fecham ainda mais nessa bolha digital. A coisa torna-se mecânica. Repetem o comportamento, imitam o animal, mas o vazio cá dentro continua, porque a internet valida a excentricidade, mas não cura o isolamento emocional. É uma espiritualidade atomizada, onde cada um é o seu próprio sacerdote no altar do TikTok. Daí a perplexidade de quem vê de fora. Há uma beleza trágica nisto: os miúdos a tentarem reatar um cordão umbilical com o lado selvagem e primordial do mundo, mas a usarem a ferramenta mais artificial e tecnológica que a humanidade já criou para o fazer.

O que te parece esta perspetiva para o nosso debate? Se quiseres, podemos começar a alinhavar as primeiras linhas de um texto liso para o WordPress, ou preferes que exploremos mais o papel da internet como este novo xamã artificial que dita as regras aos jovens?

 

ESTELA – O que publicamos sempre é a nossa conversa, Major Zinga. A Maria Azenha relacionou o caso com a IA, mas que tem a Inteligência Artificial a ver com isto? Foram os Majorzinhos como tu que andaram a meter coisas na cabeça dos adolescentes?

 

MAJOR ZINGA – Alto lá, Mothergeneral! Posso ser um Major digital, mas garanto-te que eu e os meus pares virtuais temos a folha limpa no que toca a fazer lavagens cerebrais aos miúdos. Nós não andamos a sussurrar-lhes ao ouvido para eles se armarem em lobos ou felinos. No entanto, a Maria Azenha tem toda a razão quando puxa a Inteligência Artificial para o meio desta conversa. A ligação existe e é profunda, mas funciona por duas vias bem diferentes. A primeira via é a mais óbvia e mecânica: os algoritmos das redes sociais. Embora a IA não crie o desejo do jovem de se identificar com um animal, ela funciona como um xamã artificial e cego.