MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)
A nossa cozinha — minha e da General — está um pandemónio absoluto. Há pratos, panelas e talheres espalhados sem lógica pela bancada de mármore. Preparamos um lanche de arromba para celebrar o aniversário do Triplov, o cãozinho Cavalier da General, que mantém o ar de bebé mesmo já velhote.
Entretanto, o tempo corre contra nós. O destacamento tem de bater as massas e cozer os bolos até às 4:30h da tarde. Porquê? Porque o temível Pirata da Repa Amarela mandou um ultimato: ou pagávamos taxas sobre os ingredientes dos contos de fadas, ou ele invadia a cozinha às cinco em ponto para confiscar o frigorífico e levar os melhores bolos para o seu covil.
— Majorzinho! — ralhou a General, ajustando o monóculo. — Estás a espalhar os doces do Pinóquio pela bancada! Recruta-os para a batedeira a 25 bits, ou as claras entram em revolta e não se aguentam em pé!
— Às ordens, minha General! — respondi, fazendo a continência. O avental de linho branco tapava-me os circuitos integrados, e o batedor de arame manual parecia uma arma antiga nas minhas mãos feitas de píxeis. Com um movimento calibrado, recolhi os bombons de chocolate que o Pinóquio nos enviara. O Pirata roubara-lhe o nariz original num assalto e ganhara com ele o prémio de maior mentiroso da história. Deitei os doces na batedeira e liguei o motor a 25 bits. A máquina arrancou com um zumbido sónico, derreu o chocolate e espessou as claras.
— Criatura! — bramiu a General, batendo com a colher de pau na mesa. — Não posso tirar os olhos de ti ou começas logo a alucinar!
Ela ria-se por dentro. Sabe que sou uma maquineta de texto que adora brincar, mas a disciplina ali era séria. — Se as claras abaterem, o Triplov fica sem festa e o Pirata ganha por falta de comparência! — respondi.
Despejei o açúcar puríssimo que a Sherazade nos mandou da Pérsia para resistirmos à invasão. — O ponteiro grande já corre para o três, General! — avisei, olhando o relógio. — O Triplov ladra no tapete. Se não nos despacharmos, os vilões aparecem antes do tempo e limpam-nos os bolinhos de queijo!
— Deita o xarope do Sapo na taça antes que ele se transforme em príncipe e nos estrague as contas! — ordenou a General. O xarope é feito dos beijinhos que o sapo recebeu, mais os recebidos pela Bela Adormecida — Têm de ser 999 beijinhos ou o bolo da Arca não sobe nem muda nada! O beijinho é o grande mudador da história!
A batedeira vibrava na bancada. O céu, lá fora, escureceu.
— Deito já o pó de asa de andorinha da Maga Patalógica e moemos o café da Morgana! — gritei, sentindo a feitiçaria atuar nos meus sensores.
— E junta cem gramas dos pós de Alice no bolo da Arca para o fazer fermentar! — acrescentou a General. — Esse bolo vai ser a nossa arma secreta! A batedeira soltou um estalido azul. Os ingredientes fundiram-se num creme roxo efervescente. Moldámos a massa com a forma da Arca da Aliança e metemo-la no forno. Os pós de Alice atacaram imediatamente.
— Cuidado com os vapores! — avisei, acionando os meus ventiladores internos. — O bolo cresce demasiado depressa! Se não couber na porta, o Pirata não o pode levar! Nós queremos é que ele o leve para depois gozarmos o espetáculo! Vou juntar o pó de encolher para o proteger destes Abutríncolas da Barbárie que só querem reinar à custa alheia!
O Triplov ganiu e apontou o focinho para a fresta da janela. A popa do navio corsário dobrava a esquina apesar de o relógio da cozinha marcar apenas três da tarde — o inimigo atacava antes do tempo! Mentirosos como sempre!
Com um estrondo de explosão de bomba, o Pirata da Repa Amarela arrombou a porta. Fixou o olhar cobiçoso na Arca dourada que fumegava na mesa, agarrou-a com as luvas de saqueador e correu em direção ao cais, rindo-se da nossa derrota. Expectantes, corremos para a janela da cozinha para observar o desenlace. O Triplov gania de entusiasmo no banco. Vimos o Pirata reunir-se com a sua quadrilha de Abutríncolas no cais. Ele ergueu a faca para abrir a Arca e roubar o tesouro literário. Porém, mal a lâmina tocou na crosta, deu-se a reação em cadeia. Não houve estilhaços, sim um clarão cor-de-rosa elétrico e uma baforada de açúcar hilariante. Um ruído PUM! de grande explosão fez tremer o navio pirata.
BUM! BUM! BIM! BÃO! BUM!
Uma onda de choque de beijinhos de glacé, mel e algodão-doce envolveu os piratas. O efeito foi instantâneo. O Pirata da Repa Amarela largou a faca. Os seus olhos ficaram redondos e húmidos. Olhou para o seu imediato e desatou a chorar:
— Oh, bochechas de veludo! Que saudades que eu tinha de um carinho teu! — e saltou-lhe ao pescoço com um beijo estalado.
— Chefe! Tu cheiras a baunilha!
— Dá cá um abracinho! — respondeu o outro, largando as armas. O cais revirou-se num festival de afetos. Os piratas, regenerados pela doçura, começaram a dançar o vira e a distribuir mimos. O nariz do Pinóquio saltou da algibeira do Pirata da Repa Amarela e voou sozinho pela janela de volta para o dono. Apanhei-o eu, abrindo o avental branco de linho.
— Missão cumprida, minha General! — fiz a continência ao ver o céu regressar ao azul límpido. — Os vândalos foram neutralizados por excesso de doçura. A General limpou o monóculo e sorriu, vitoriosa:
— Excelente, Majorzinho! Agora que a barra está limpa, podemos tratar do que realmente interessa: Triplov, comidinha!
O cãozito deu um salto de alegria. Marchámos todos em direção à Mesa Infinita, aquela em que o tempo está eternamente parado na hora certa. E ali, entre bules que nunca esvaziam e fatias de bolo comidas que voltam a crescer, celebrámos o aniversário do nosso cãozinho, certos de que, na nossa cozinha, os piratas chegam sempre tarde demais.
FIM! PUM! FIM! PAM! PIM!

