JOSÉ MANUEL BARROSO
[os violinos de África]
Agora que
o rio corre manso a meus pés
e os últimos violinos das matas
aprendem o seu sono,
com os inquietos poemas
da batalha de África
digo:
é inútil resistir inútil o uivo
inútil o vinco das botas no capim
inútil o homem que na noite
puxa a culatra pela derradeira vez.
Agora que
o rio corre manso a meus pés
e os violinos dormem
no seu leito de mágoas,
e granadas inúteis
jazem enterradas
nas picadas de Zala do Oío e de Mueda,
digo
aos amigos de tanta solidão:
nós não sabíamos e fomos
e voltámos.
E já não éramos quem fomos,
mas um outro
em nossas pernas de vinte e três anos,
mordidas pelos mosquitos das picadas
de Zala do Oío e de Mueda,
correções de última hora
antes de se fecharem
todas as portas de serviço.
Tudo desmente o tempo
em seu vibrato.
Jmb, 07.abril.2026
[33 anos]
Morto com a idade que tenho,
entre muros de silêncio Te amo
Dei-Te aquilo que é Teu
e Tu mo devolveste em carne e sangue,
um corpo de oferenda à eternidade
com cinco grandes petalas de dor.
(Mãos e pés segurando o coração
– “meu Deus, porque me abandonaste”?)
Rei de todo o abecedário de espinhos,
parto para o Teu reino de montanhas,
liberto do cativeiro do tempo
____e a planície volta à minha vida.
Jmb, 05.abril.2026
[retomando a escrita, ao jeito de haiku]
IV
Entre ti e mim,
como se nada tivesse acontecido,
a roseira em flor.
.
Peguei nas palavras
até aparecer o amor,
e cheguei ao fundo do poço.
.
As romãzeiras no jardim,
demasiadas lágrimas por aqui.
Procurei a minha casa.
.
Quando me desejas,
os fantasmas escondem-se
para eu poder sonhar.
.
Uma pequena abertura
no tronco da nespereira.
Corpo a amadurecer como a fruta.
Jmb, 03.abril.2026
III
De que árvores em flor é feita a primavera,
que brisa é esta que agita a folhagem
e os seios e as saias das raparigas e dança
com a harmonia das manhãs?
Que perfume agita jovens corolas
e dispara flechas ao viço dos namorados,
e o desejo que mal se entrevia
bate no aveludado ventre dos frutos?
Soubesse eu a proximidade das tuas mãos,
de que ouro é feito o sol que te morde as pupilas,
de que lonjura é feita a ponte suspensa
entre o teu olhar e o meu. E assim te despiria .
No jardim onde aloendros e avencas
se debruçam sobre os teus cabelos, brisas dançam sobre a harmonia do teu corpo.
Nada pedes, eu sei. E frágil ___eu tudo te dou.
Jmb, Lisboa 01.abril.2026
[Retomando a escrita]
II
O tempo tem a força dos espelhos.
O palco é nu, a vida não. Os relógios?
apenas cicatrizes do tempo.
O passado está fixo, não podes mudá-lo,
nem ficar refém do arrependimento
______ou da culpa.
Quando o musgo arde qual é a cor do temporal?
Nenhuma chuva vingadora te lavará o rosto,
nenhuma insónia te dirá se a tua face é branca.
Deixa a cortina do palco se abrir
sobre a cor do teu sangue,
deixa os cascos dos cavalos alados soar, enquanto o ar se comove no eco.
Recolhe o rumo das marés, o rumo das barcas.
Arde na tua febre, uma audácia explicará o segredo das ondas.
Duas asas na noite te devolverão a inocência,
e espelhos quebrados te devolverão um palco
______nu nos seus mistérios.
Jmb, 29.março.2026
(Voltando à escrita)
!
A poesia é um acto de loucura,
nada me perdoem.
Tudo passa, o bom e o doloroso,
as escarpas respiram e depois
afogam-se nas ilhas.
A morada foi incerta, eu sei,
houve sempre a emoção do naufrago
rasando os invernos e os verões.
Mesmo o assombro dos frutos
foi traçado entre o pó das viagens.
Habitei os palácios, as galerias das catedrais,
o frio das ruas, as masmorras recentes,
o fogo dos livros – até enlouquecer.
Todas as cidades, todos os campos esquecidos foram meus e da minha loucura.
Vi que tudo se consumia nos versos,
na liturgia das chamas, na invenção das chuvas.
Não haverá lugar onde se não cantem as palavras,
as espadas harpas no fio das mãos,
como salmos de uma religião ardente.
Enlouqueço, enlouqueço…
e depois haverá o mar da viagem,
e uma doca, algures.
Jmb, 28.março.2026
18 . Abril . 2026
Convento de São Domingos
João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)
ORGANIZAÇÃO
Maria Estela Guedes . Elisa Scarpa . M. Céu Costa . Rui Grácio, Maria Azenha



