NICOLAU SAIÃO. Imagem: Margarida ChatOn (IA)
Do “Caderno de notas do Dr. Jagodes”
Uns estão no ramo da diplomacia, outros no do professorado. Ainda outros e outras, prevalecem-se no meio termo que é qualquer coisa pública, assessorias e novelísticas de meia-mantença. Ou de mantença completa. Propagam-se, como as orquídeas do deserto. Ou os malmequeres da estepe. E têm feicebuques e escrevinham croniquetas e entesouram espaços e programinhas de TV. Ora se masturbam, ora fornicam entre eles as frases com que se entesoam. Que andaram quase todos na mesma faculdade, a da notoriedade obrigada a mote.
São gente fina e reivindicam-se gastrónomos. Ou dizem-se. Ou apelam-se. Comem do bom e bebem do fino. Quando acaso se banqueteiam, enchem o bandulho como humanos piteireiros; e fotografam-se, porque nunca perceberam que, como dizia Beau Brummel, “se tiveres necessidade de dizeres quem és, não és ninguém”. Vestem bem se lhes apetece e mal se lhes quadra. São solidários, dessolidários, inteligentes ou encenadamente estúpidos. Porque isso é belo lá entre eles. Ou outra palavra qualquer, porque o seu signo é a crueldade e o desdém que disso parte. Sem saberem, acederam à maior santidade, a da galhofa no meio da lama. Por isso, de vez em quando vão de ventas à torneira.
Para terem um bocadinho de sonho? Creio que nem isso. Usam a cara como se usa a petulância de um sorriso sardónico. Ou a sobranceria ratona de um ecletismo louçano de opereta. São portugueses portuguesas até à medula, mas só nos fundilhos. De esquerda ou de extrema-esquerda tanto faz, isso é apenas um detalhe inócuo. Mas que os ajuda a fingir que são de fora, como aquela pedante loira e depois morena e depois loira televisivamente que escrevendo como se escreve nos croniquentos jornalitos de cá se sentia redactora de grande semanário americano. Para se compensar de ser uma criada de políticos ratoneiros? Muito provavelmente. Velhacazita como um abutre com cio? Tão natural como a sua sede de urubu. De urubua. Pois o céu está-lhes prometido, a ela e aos seus parceiros de charneca.
São da bela rapaziada. Decididos mas frascários. Canalhas mas vencedores. E se vencidos por qualquer razão, ficarão sempre na mó de cima. É da sua condição de classe média alta baixa. Ou de fidalgotes que como a pescadinha antes de o ser já o era. Ainda que republicanos. Ou das monarquias pindéricas.
Espertíssimos, mas o país que controlam jamais passou da cepa torta. Talentosos, mas o sarro nunca o tiraram das esquinas e das paredes da pátria. Quando rebentam, quando estoiram (não morrem, fundem-se, esta gente não é digna de morrer) imortalizam-se na conversa rôta e sorna dos seus pares.
Nunca escrevem nada de permanente, de sóbrio, de fundacional e sincero. E da emoção apenas sabem a lagrimeta fácil. Que pode ser arroto. Ou traque. Mas nunca grito desgarrador e comovente.
Pululam nos espaços interactivos, televisivos e nas folhas-de-couve da Nação. Unem-se em irmandades informais e em cooptações estarrecedoras. Ou afectuosas. Lusitanamente doloridos, mas no fundo do poço da alma trazem nele a marca, o ferrete da hipocrisia mansa e do cinismo de bom tom.
Nunca serão fuzilados num terreiro? Nem pendurados num carvalho da Califórnia? Nem empalados num zimbreiro da Transilvânia?
Quase eternos, omnipresentes como piolhos por costura, nunca nos veremos livres deles?
São a garantia da raça bastardinha. E têm opiniões. Autónomos na sua infâmia progressiva e moderna, durarão até ao fim dos séculos. Ou mesmo um poucochinho mais.
Mas nem dão nem nunca darão p’ra tabaco.
José Jagodes

