JOÃO CAMILO
1
Eu gosto de pessoas que fazem perguntas e que quando as interrogamos não se furtam a responder-nos. Quem não fala connosco, em certo sentido é como se não existisse. Ou nos recusasse a nós a existência, tivesse decidido desprezar a pessoa que nós somos. Não se pode agradar a toda a gente, ser amado por toda a gente. O amor é um acontecimento raro. Mas viver na sombra, clandestinamente, é uma solução? Ignorar os nossos semelhantes é uma prova de arrogância.
Bem sei, as palavras, os olhares, o mínimo gesto e até o silêncio podem dar origem a muitos mal-entendidos. Mas estamos neste planeta, não adianta querer ausentar-se dele e viver noutro para escapar ao nosso destino. Provavelmente é isso que acontece, muitas das pessoas que nos rodeiam vivem noutro planeta. Bem longe do nosso e por isso é impossível entrar em contacto com elas. Vemo-nos na rua, cruzamo-nos à entrada ou à saída do metro ou do supermercado, suportamos com má cara o tédio da vida, educamos os filhos, vamos ao cinema. Vamos ao cinema, evidentemente, para ver as outras pessoas envolvidas em histórias que se assemelham às nossas ou em que gostaríamos de estar envolvidos mas não estamos.
Não, não é verdade que quem não fala é como se estivesse morto. Há sempre excepções às regras que nós inventamos para acreditar na regularidade científica do que se passa no mundo. Algumas das pessoas que não falam andam certamente concentradas numa realidade interior profunda que nos é inacessível. Irradiam até, às vezes, um ar de seriedade que nos seduz, que nos deixa intrigados e nos comove. Não se pode deixar de ter em conta isso. As pessoas silenciosas provavelmente conhecem os segredos da vida melhor do que nós. Concentradas na intensidade do ser, evitam perder tempo com aqueles que ainda vivem no erro.
2
– Qual é a razão, perguntei-lhe eu.
– A razão de quê ou para quê, interrogou-me ela.
– A razão por que não me vês quando passas por mim na rua, por exemplo. A razão por que não me falas.
– Oh, respondeu ela, nem me dei conta. Tens a certeza que nos temos cruzado, que nos cruzámos?
Não a deixei duvidar, acrescentei logo:
– Tenho, claro.
Franziu o sobrolho, pareceu um pouco embaraçada, achei-a de repente tímida, mas respondeu-me:
– Não é por razão nenhuma em particular, devo andar distraída com a minha vida.
Eu continuei:
– Mas quando andávamos no jardim-escola eras minha amiga, ríamo-nos muito juntos, divertíamo-nos, não? Talvez até existisse entre nós uma paixãozinha secreta.
– Oh, disse ela, já me tinha esquecido desse tempo. Nós crescemos, a vida levou-nos em direcções diferentes, já não somos a mesma pessoa nem tu nem eu.
Não era difícil estar de acordo com ela.
– De facto já não somos a mesma pessoa, nem tu nem eu.
Fiz uma pausa, mas um pouco depois acrescentei:
– Ou seremos, afinal? Continuaremos a ser o que sempre fomos? Como saber?
– Nunca nos banhamos duas vezes nas mesmas águas do mesmo rio, tudo vai fluindo, só o movimento existe, disse ela, satisfeita por encontrar uma conclusão tão filosófica e tão convincente.
Ela tinha razão. Mas nenhuma afirmação, como nós sabemos, sobretudo quando queremos levar a água ao nosso moinho, é incontestável. Eu podia não estar seguro do que estava a fazer, mas se queria conversa não podia duvidar. Continuei:
– Pensando bem, será que mudamos tanto como imaginamos, será que mudamos realmente e que nos transformamos noutra pessoa?
Ela ouviu-me, hesitou, sorriu, percebeu que eu não me calava. E não comentou. Eu tentei fechar a discussão dizendo que enfim, seja como for, um dia paramos de vez e ficamos eternamente com a cara com que havemos de morrer, deixou de haver mudança. E com um cinismo que se pretendia poético concluí:
– Cara essa que entrará em decomposição rapidamente, mas como nos enterram logo a seguir as pessoas podem continuar a recordar-se de nós como se ainda tivéssemos aquele rosto inconfundível.
Mais tarde ela estava sentada ao meu lado no cinema, era no intervalo. Eu peguei-lhe na mão:
– Pensando bem, talvez ainda gostes de mim e eu talvez ainda goste de ti.
Ela não tirou a mão, não olhou para mim, mas pareceu-me que se comoveu um pouco. Provavelmente há muito tempo que ninguém lhe pegava na mão. Provavelmente ela amava-me, nunca tinha deixado de me amar e estava apenas à espera que eu tomasse a iniciativa. Encostei a minha cabeça à dela e dei-lhe um beijo na cara. Acariciei-lhe a nuca. Ouvi-a sussurrar, mal se percebeu, como se estivesse envergonhada ou a tivesse assaltado o pudor:
– Tu és surpreendente, não te vejo há anos e retomas a relação comigo como se tivéssemos sido muito íntimos e jantado os dois num restaurante ontem à noite. Como é que tu podes ser assim?
Recearia que a ouvissem ou tinha dificuldade em dizer o que sentia? As pessoas sentadas ao nosso lado, à frente ou atrás, estavam na vida delas, a nossa não lhes interessava. Não havia razão para tanto pudor, para tanta modéstia.
– Sou surpreendente porquê, sussurei-lhe eu pouco depois. Não sou é tão distraído nem tão superficial como a maior parte das pessoas, o que me acontece, aconteceu-me mesmo.
Ela suspirou, olhou-me com uma espécie de impaciência. Eu prossegui:
– Não te via há três anos, agora encontrei-te por acaso, não fiz esforço nenhum para me comportar contigo como me estou a comportar, as pessoas que eu amei fazem parte de mim, estão sempre em mim, mesmo quando se ausentaram ou morreram.
Era difícil parar-me, ela ia tentar mas desistiu.
– Achas surpreendente que eu te tenha pegado na mão, que eu te tenha acariciado o cabelo, beijado na cara? Não há razão para espantos, tu já devias saber que eu gosto de ti, que hei-de sempre gostar de ti, seja qual for o sentido que se pode dar a essas palavras.
Ela fez-me sinal para falar mais baixo, eu obedeci e murmurei:
– A minha ternura por ti nunca se esgotou. Dou-me conta disso quando penso em ti, isto é, a maneira como eu penso em ti está sempre envolta numa grande ternura e em nostalgia.
Ela, subitamente lúcida, disse baixinho:
– Dizes essas coisas, mas o que é que fizeste para me rever? Nada, encontrámo-nos por acaso. Eu não te fiz falta, viver sem me ver não te perturbou.
Ouvi-a falar mas não disse nada. Aproximei-me de novo da cara dela e procurei a sua boca. Ela hesitou, mas beijámo-nos com alguma lentidão e suavidade, não era lugar para outros abandonos.
– Vês, vês, disse ela quando me afastei um pouco do seu rosto.
Mas não acrescentou mais nada, ficou a olhar, calada e concentrada não sei em quê, para o filme, uma xaropada americana de que nos tínhamos desinteressado. O que é que ela queria dizer com aquele “vês”? Não percebi.
3
Tudo se explica, aparentemente. Podemos acreditar nisso, apesar de a experiência nos ensinar o contrário. A gente pergunta porquê e começam a explicar-nos. A explicação pode não nos satisfazer, mas como o significado e a importância de tudo o que se diz depende da perspectiva que se adopta, convém fazermos um esforço para percebermos o ponto de vista de quem nos está a falar. E as coisas ficam mais simples, tornam-se muito mais interessantes. Ou ficam mais complicadas, mas não nos queixemos, o debate é uma prova de insatisfação e um desejo inocente de verdade, E é assim que se progride no caminho fecundo das sombras na direcção do nada final, momento de iluminação definitivo.
Às vezes há verdades que surgem bruscamente de uma discussão confusa. Nem todas as verdades são duradoiras, a maior parte são transitórias. Tudo se usa, tudo se gasta. Mas é melhor aceitarmos o carácter transitório da sabedoria e não nos queixarmos.
Morreremos cheios de perguntas por fazer. Mas se não perguntámos, como queríamos que nos respondessem, mesmo não nos respondendo?
4
Depois do cinema fomos a um bar tomar uma cerveja. Estávamos sentados a fumar, eu já estava mais seguro de que alguma coisa mais séria se estava a organizar, perguntei-lhe:
– Porquê, qual é a razão?
– Outra vez, disse ela como quem pergunta.
– Outra vez o quê, disse eu.
– Outra vez a razão, o porquê, disse ela. Porquê o quê? O que é que tu queres saber, o que é que te tortura tão insistentemente?
– Eu sei o que estou a dizer, sussurrei eu. Como é que pudeste viver tanto tempo longe de mim quando sabias que eu te amava como nunca amei ninguém? É um crime, foi um crime. Como se eu já tivesse morrido. E hei-de morrer, tu sabes isso, mas não te incomodou a minha morte antecipada longe de ti, sem uma palavra tua. Pudeste passar sem mim. Não posso entender.
Ela ficou calada. Depois pôs a mão na minha e sem me olhar acariciou-me. Depois ouvi-a dizer:
– És tão parvo. Até parece que estás a brincar comigo, a pensar que eu sou estúpida. E tu, procuraste-me?
– É importante saberes que eu conto contigo, disse eu.
– E tu queres mesmo estar comigo, é a sério, perguntou ela, olhando-me nos olhos com alguma ironia.
Depois baixou a cabeça e acrescentou:
– Para que é que eu sirvo, tu não morreste nem ficaste muito infeliz longe de mim, não devo ser assim tão importante, não te devo fazer tanta falta como tu dizes.
– O que é que tu sabes do que me faz falta, disse eu, as pessoas não andam na rua a queixar-se, a gritar as razões do seu sofrimento.
Acendi um cigarro. Ela continuou silenciosa, estava a pensar em qualquer coisa.
Estou a conseguir entrar na alma dela com pezinhos de lã, pensei eu. Suavemente, ela está a deixar-me entrar, já não se opõe, já percebeu. E alegrei-me.
Ficámos no bar ainda mais meia hora a conversar e a beijarmo-nos. Só um pouco mais tarde, quando já íamos a pé pela avenida a caminho da minha casa é que eu pensei: ela tem razão, para que é que ela me serve e para que é que eu lhe sirvo? Mas para acabar de vez com dúvidas tão inoportunas apertei-lhe a mão que ela, carinhosa, tinha deixado na minha e beijei-a com uma sofreguidão desesperada no pescoço.
