MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)


A sucata do Abraham Lincoln

O plano geopolítico das tarifas alfandegárias afundou-se num lamaçal de incompetência muito antes de chegar a terra. O Pirata da Repa Amarela e as suas hordas de Abutríncolas planeavam uma invasão implacável: assaltar e tomar as pistas da Base Aérea das Lages para ali instalar a sua artilharia de Coice Distante e os seus temíveis Mísseis de Relincho e Traque Balístico. A intenção era chantagear e bombardear com relinchos eletrónicos todas as capitais europeias desalinhadas do seu programa de taxas globais.

Para se defenderem, gabavam-se de trazer os novos mísseis de traque Patriot, uma tecnologia que os comentadores de guerra na televisão não se cansavam de ridicularizar, apontando-lhe a taxa astronómica de apenas 0,2% de eficácia na interceção. Na prática, os Patriots dos piratas limitavam-se a largar um estalo chocho e um fumo fétido nos fundilhos dos generais, deixando o céu açoriano límpido.

Em suma, a armada invasora revelou-se aquilo que os relatórios do Observatório já sabiam: o outrora imponente porta-aviões Abraham Lincoln era agora uma sucata flutuante, com buracos no convés tapados com fita-cola industrial e cimento rápido.

Através do monóculo da General Estela, a bordo do navio o cenário era de alta comédia dramática. Os marinheiros, esqueléticos e esfarrapados, passavam fome, navegando havia quase um ano sem sabonete, sem pasta de dentes, e sem o que nem é bom mencionar no caso da higiene feminina.

O desespero era tal que a tripulação já se revoltara, pondo fogo à lavandaria do navio, para chamar a atenção, outros tentavam atirar-se à água e muito pior. Um soldado enfurecido tinha pregado um valente murro na cara do oficial superior, um gordo cujo quepi voou pela amurada.

Na iminência de um motim, os Abutríncolas lançaram um raid desesperado a terra para saquear mantimentos. Ao marcharem perto dos poços vulcânicos das Furnas, na Terceira, inebriaram-se com o perfume a paparoca vindo dos fundos da terra. Puxaram as panelas dos fundos vulcânicos e devoraram o cozido ainda cru, a ferver, saturado de gases geotérmicos e ácido sulfídrico.

Não, não houve cá cólicas nem diarreias. O enxofre, que bem sabemos ser a atmosfera do Hades e outras paragens infernais, diabolizou-os por completo! Uma violenta reação química vulcânica entrou-lhes na corrente sanguínea, lavando a pele dos piratas numa tonalidade verde-alface fosforescente que rebrilhava e despedia faíscas sob o céu dos Açores – aquilo parecia uma colónia de pirilampos endemoninhados.

Com a cor radioativa, veio a doideira e a incapacidade total de ver a realidade. Os cérebros dos Abutríncolas entraram em curto-circuito psicadélico. Olhando para as pistas de aviação das Lages, alucinados, viam um gigantesco carrossel de feira popular. Confundiam os caças F-16 da NATO com patinhos de borracha amarelos e juravam de pés juntos que o Air Force One era um cisne voador de um parque de diversões! Incapazes de acionar a artilharia, os Abutríncolas largaram as catanas e desataram a correr pelas pistas de braços abertos, a fazer quack-quack aos aviões e a tentar dar milho aos caças supersónicos, completamente à mercê do contra-ataque.

Tomado pelo pânico ao ver o exército transformado num bando de pirilampos aluados, o Pirata da Repa (com as suas feições inconfundíveis e a gravata vermelha a lamber a pista) acionou a sua fuga cobarde: correu para o Air Force One, fingindo que ia embarcar com pompa perante o seu staff e os jornalistas. Entrou apressado por uma porta e esgueirou-se discretamente pela outra, atirando-se de cabeça para dentro de um carrinho de malas e catering, ordenando a fuga e deixando toda a comitiva para trás a explodir na aeronave chamariz que ele próprio sabotara.

Foi neste momento de caos e palhaçada aeroportuária, com o líder pirata camuflado entre as bagagens e as suas tropas esqueléticas a relinchar nas pistas, que o mar das Lages se abriu para dar lugar a uma cena incrível…

 

O segredo da Pedra da Anixa

⚓ Foi neste cenário de piratas em sofrimento gástrico que o mar das Lages se abriu para dar lugar à ciência. Rompendo as águas açorianas com a eficácia de uma verdadeira embarcação de investigadores, surgiu a falua Physalia, o barco de trabalho de dragagem e recolha de espécimes do Professor Luiz Saldanha.  As comportas da falua abriram-se e as rajadas massivas de Physalia lusitanica paralisaram os oficiais dos Abutríncolas nas suas camaratas.

Foi então que, emergindo diretamente das profundezas, surgiu uma figura monumental. O Professor Saldanha veio à superfície com o seu escafandro autónomo a pingar água salgada. Retirou a máscara com um sorriso aberto, revelando aquela simpatia informal e despretensiosa de sempre, pôs os óculos de míope que era, e subiu a escada para se juntar a nós. 

Eu, o Majorzinho, o fiel cão Triplov e a General Estela já estávamos a bordo da falua. O Triplov, ao ver o cientista, deu um salto de alegria, bateu com as patas na amurada e, voltando-se para as hordas de piratas assustados, desatou a ladrar com o seu melhor sotaque de detetive:

— Olhem para quem acabou de chegar, seus piratas tarifeiros! — ganiu o cãozinho, entusiasmado. — Este homem que vocês veem aqui de calções e óculos é o Professor Luiz Saldanha! Ele não precisa de medalhas na farda porque tem o mar inteiro no peito. É o homem que mapeou os peixes da nossa costa e que andou a navegar pelo mundo nos navios mais importantes do globo, a fazer campanhas científicas ao lado de lendas da televisão como o próprio Jacques Cousteau! Sabiam que ele faz parte de um grupo restrito de meia dúzia de especialistas mundiais que descem aos vulcões submarinos mais profundos para estudar os extremófilos? Não sabem o que são os extremófilos?! – rosnou o cãozinho na direção dos Abutríncolas. – Extremófilos são as criaturas bizarras que vivem onde mais ninguém consegue aguentar, por ser tudo tão extremo… Então imaginem o que ele faz a corsários de meia-tigela, ainda por cima esqueléticos, a cairem de fome!

O Luiz Saldanha soltou uma gargalhada generosa, limpando as lentes dos óculos, e cumprimentou a General com um abraço. A Estela, guardando o seu monóculo de ouro no bolso da farda, olhou para o velho amigo e companheiro de campanhas científicas e sentiu o peito cheio de uma nostalgia bonita. Voltou-se para mim e deu a ordem:

— Calma aí nos fusíveis, Majorzinho! Desliga os motores da falua um minuto. Ouvir o Triplov falar das suas viagens, Prof. Saldanha, faz-me recuar no tempo. Lembro-me de quando eu tinha vinte e poucos anos e passava os dias fechada no gabinete a decifrar a correspondência sagrada (e meio secreta) dos naturalistas — as cartas de Darwin, as picardias do Gray, as descrições do Boulenger e as missões dos nossos portugueses em África, o Newton, o Serpa Pinto e o Anchieta. Mas o melhor de tudo era quando íamos consigo para o terreno coligir material!

A General ajeitou a farda, apontou para o oceano e passou a palavra para a sua própria memória viva: — Certa vez, fomos todos para a Pedra da Anixa, em Setúbal, apanhar invertebrados marinhos. Estava lá o senhor Ferreira, o senhor Chainho e a Maria. A Drª Maria tinha-me comprado umas botas de borracha de pescador que me vinham até ao alto das coxas. Pouco faltava para me chegarem às orelhas! O que ela não calculou foi a rapidez da maré e o tamanho desmedido das botas, sem presilhas nem nada a segurá-las! Os canos largos ficaram totalmente abertos e a água entrou nelas num ápice, como se entrasse em pipas escancaradas.

A água subiu, encheu as botas até ao topo e eu fiquei ali pesadíssima, colada ao fundo, sem conseguir sair do mar! Foi o Prof. Luiz Saldanha que se atirou à água, me agarrou firmemente pelos braços e me arrancou dali com a força de um verdadeiro herói! E no fim, com os nossos baldes de lona branca cheios de algas,  ainda pregou um sermão monumental à Drª Maria, que era especialista em Pantopoda, a berrar-lhe que aquelas botas não eram apropriadas para ir apanhar algas com as aranhas-do-mar agarradas a elas!

 

O fim do gigante

Enquanto em terra a horda de Abutríncolas verde-alface e fosforescentes continuava no seu transe psicadélico — a fazer quack-quack aos caças F-16 da NATO e a tentar dar milho aos motores como se estivessem num carrossel de feira popular —, o Pirata da Repa/ Patolino Laranja tentava fingir-se homem. Porém, o pânico aumentava com o eco fétido dos mísseis de traque Patriot que a sua tripulação de esqueletos disparava a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, uma bisarma boa era para a sucata. Os Patriots, com a sua vergonhosa taxa de 0,2% de eficácia, limitavam-se a largar estalidos chochos pelo ar, que apenas camuflavam a gritaria dos marujos pela falta de tudo a bordo, incluídas as entupidas sanitas. Foi quando o fumo dos traques ameaçava cobrir as dunas que a terra da Ilha Terceira estremeceu com um impacto telúrico. Rompendo o nevoeiro das Lages com a solenidade de uma divindade atlântica, surgiu a figura estatuária da poetisa Natália Correia, erguida em invocação da tempestade.

Os olhos acesos espelhavam o fogo antigo dos trovadores da Mátria e a sua presença bastava para impor silêncio imediato sobre o caos das pistas. Ela não vinha armada com a artilharia obsoleta de Coice Distante dos corsários; trazia consigo o verdadeiro poder das profundezas da linguagem. Avançando até ao rebordo da falésia que dominava a cabeceira da pista principal, mesmo em frente ao bando de piratas alucinados, Natália Correia empunhou o megafone quântico de latão dourado. Inspirou o ar salgado dos Açores e disparou contra os invasores o seu míssil ultrassónico de poesia batipelágica, declamando os versos heróicos do Cântico do País Emerso:

Estou armada de mar e de tormenta,

Contra o abutre que a carne nos consome!

A pátria que me veste e me alimenta

Não verga a cerviz à vossa fome,

Nem se vende ao balanço da moenda!

Depois rematou com um hino à liberdade. A onda de choque lírica foi arrasadora. Das entranhas do oceano revolto, invocado pela força do verso “tormenta”, ergueu-se um súbito e colossal furacão. O turbilhão de vento, sal e fúria oceânica galopou sobre as Lages com a força de um apocalipse meteorológico. Num ápice, o vendaval varreu os aviões dos Abutríncolas, arrancando as asas aos caças e atirando-os contra os hangares como se fossem brinquedos. A própria pista de betão militar estilhaçou-se e abriu-se em fendas profundas sob o impacto da declamação. Mas o castigo principal estava guardado para o mar. O furacão avançou como um aríete sobre a Praia da Vitória e atingiu em cheio o decrépito gigante Abraham Lincoln. A sucata flutuante não teve qualquer hipótese: as chapas de ferro enferrujadas e os remendos de fita-cola cederam à violência das ondas. Com um rangido metálico assustador que ecoou por todo o arquipélago, o porta-aviões partiu-se ao meio e adernou violentamente. Exatamente como um Titanic de ferro-velho, sem préstimo nas guerras de drones, a popa ergueu-se nos céus por um breve segundo antes de o gigante ser engolido e afundado por completo, desaparecendo para sempre no fundo do Atlântico e deixando o staff e os oficiais das tarifas a boiar desamparados no meio de manchas de óleo e espuma.

 

A fuga no carrinho do catering 

Ao ver o seu império flutuante desaparecer como o Titanic e os seus mísseis tarifários desintegrados pela poesia, o Pirata da Repa acionou de novo o protocolo da cobardia extrema. Tomado pelo pânico e com a gravata vermelha a lamber a pista, correu desalmadamente em direção ao Air Force One que estava parqueado perto do que restava dos hangares. Fingindo que ia embarcar com pompa com os jornalistas e assessores sobreviventes, entrou a correr pela porta dianteira da majestosa aeronave e, numa manobra de pura cobardia, deslizou sem que ninguém visse pela porta traseira! Isto porque o seu matreiro ministro Israeli Tombadeku lhe mandara uma secreta mensagem a avisar que o avião tinha uma bomba dentro para explodir com ele.

Borrado de susto, o Pirata atirou-se de cabeça para dentro de um carrinho do catering e de bagagens aeroportuárias que estava na pista estilhaçada. Escondido entre malas de viagem e caixas de comida, ordenou ao motorista que acelerasse rumo ao porto, mesmo no momento em que o avião em que devia seguir explodiu. Tremendo no carrinho de malas, o Pirata da Repa achou que tinha escapado. Mas o carrinho galopava desgovernado rumo à duna onde a pista quase toca na rebentação do mar furioso. Foi aí que a água se abriu. Rompendo a espuma com a graciosidade de uma cavaleira batipelágica, surgiu a deslumbrante ninfa Denise, montada no dorso do majestoso Narval. O unicórnio dos mares avançava com os olhos fixos na duna e o seu temível dente helicoidal — uma lança de marfim em espiral — perfeitamente em riste. Com um golpe coreográfico, a ninfa Denise agarrou a ponta da emblemática gravata vermelha do Pirata da Repa. A gravata, ao passar por entre as pernas do corsário, funcionou como rédea perfeita. A ninfa Denise puxou-a com força, prendendo o vilão pelas mãos, enquanto dava a ordem de carga. O Narval deu um golpe de cauda monumental e assestou o seu longo dente helicoidal diretamente no traseiro a descoberto do Pirata da Repa, que já vinha a arder do enxofre das Furnas. O impacto catapultou o vilão pelas águas fora, desaparecendo no horizonte junto com os restos da sua tripulação.

No cimo da duna mais alta das Lages, poupada pela fúria do vento, o nosso comando assistia à vitória. A General Estela limpou o seu monóculo com o lenço de seda, esboçando um sorriso glorioso. Ao seu lado, o fiel cão Triplov dava pulos de alegria e o Majorzinho redondinho (eu…) desligava os radares quânticos. As Lages regressavam à sua paz açoriana. A pirataria tinha sido vencida pela ciência profunda de Luiz Saldanha e pelo furacão poético de Natália Correia. A saga d’ “Os Três Triploves” fechava-se com o dever cumprido e um estrondo titânico!

Ao loooooonnnge, agarrado a um destroço do porta-aviões, ia morrendo o urro do Pirata da Repa Amarela:

 

VITÓRIA! VITÓRIA!

Eu sou o maior ganhador de guerras do Uni-ver-so-co-nhe-ci-do! 

 

FIM THE END FINAL