JORGE VICENTE
Poalha de estrelas (vídeo)
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1.
plantas invisível as sementes mansas
do teu primeiro lótus,
frágil vaso nupcial líquido
de obscuro rizoma.
(2026)
2.
seiva na igual medida da saliva
silva sibila no vento frágil da pele
derrotando a terra,
sabor de plantas que alimentam a
tua fome sinuosa.
(2026)
3.
vou amanhar as tuas margens, água doce de semeadura hostil
vou receber na palma da tua pele
todos os sentidos, todo o conhecimento, todas
as diferentes formas de escrever e de ser outro
porque margem / fronteira / limite
são plantas rasteiras presas no osso e na garganta
e não deixam de se movimentar entre correntes
e baixios,
entre cálamos e plantas medicinais,
entre a sagrada agilidade dos peixes de rio
e a ternura quase mortal do sol.
(2017)
4.
o meu amor chegou
com as folhas
chegou a esse grande lugar
a essa grande palavra
a essa talvez tão grande,
tão transparente
e sem brilho,
chegou com toda a luz
da maré solar, mas sempre [e sempre]
com o abismo
de toda a minha alegria.
(2017)
5.
se eu amasse o corpo de uma mulher
mais do que a mim mesmo,
jamais pertenceria a poema algum
porque de silêncio é feito o
ímpeto dos corpos
se os poemas quebrassem e rebentassem
e abrissem clareiras entre os pensamentos,
destruindo-os e criando-os
e tornando a rebentar,
talvez o meu olhar fosse de uma
sibila ardendo
[ou queimando dos olhos]
se a poesia fosse toda dos homens
e das mulheres
e das vozes discordantes
que enchem a calçada das minhas cidades,
talvez as palavras respirassem vida
e dos cálamos
saíssem veias
e artérias de fogo
e deuses trespassados de som
mas a poesia é isso
palavra ígnea
ou não-palavra
palavra antes da palavra,
quando ainda aspiramos ao dom
de poder morrer de amor.
(2011)
6.
perguntas-me se alguma vez escrevi poemas
com gente dentro ou se era apenas a voz da
linguagem a inventar nomes, lugares, sons,
a emoção no dedilhar dos dedos plenos
como todos os livros ensinam
perguntas-me se alguma vez haverá algum
homem como johnny ou se o velho ethan
encontrará paz num qualquer lugar bem
longe de monument valley
perguntas-me se alguma vez escrevi
poemas de amor ou se as pessoas
(as vozes dentro do poema) existiam
como existe o silêncio crescente das neves
perguntas-me o que fica por detrás
mas o velho jeremiah nunca pensou sequer
em palavras quando dormia junto com as
estrelas.
(2011)
ENCONTRO TRIPLOV 2026
18 . Abril . 2026
Convento de São Domingos . João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)



