Jorge Vicente. Foto de Elisa Scarpa.

 

JORGE VICENTE
 Poalha de estrelas (vídeo)

https://festivaldominuto.com.br/pt-BR/contents/57959/

 


1.

plantas invisível as sementes mansas

do teu primeiro lótus,

 

frágil vaso nupcial líquido

de obscuro rizoma.

(2026)

 

 

2. 

seiva na igual medida da saliva

silva sibila no vento frágil da pele

derrotando a terra,

 

sabor de plantas que alimentam a

tua fome sinuosa.

(2026)

 

3. 

vou amanhar as tuas margens, água doce de semeadura hostil

vou receber na palma da tua pele

todos os sentidos, todo o conhecimento, todas

as diferentes formas de escrever e de ser outro

 

porque margem / fronteira / limite

são plantas rasteiras presas no osso e na garganta

e não deixam de se movimentar entre correntes

e baixios,

entre cálamos e plantas medicinais,

 

entre a sagrada agilidade dos peixes de rio

e a ternura quase mortal do sol.

(2017)

 

4. 

o meu amor chegou

com as folhas

 

chegou a esse grande lugar

a essa grande palavra

a essa talvez tão grande,

tão transparente

e sem  brilho,

 

chegou com toda a luz

da maré solar, mas sempre [e sempre]

com o abismo

de toda a minha alegria.

(2017)

 

5. 

se eu amasse o corpo de uma mulher

mais do que a mim mesmo,

jamais pertenceria a poema algum

porque de silêncio é feito o

ímpeto dos corpos

 

se os poemas quebrassem e rebentassem

e abrissem clareiras entre os pensamentos,

destruindo-os e criando-os

e tornando a rebentar,

talvez o meu olhar fosse de uma

sibila ardendo

 

[ou queimando dos olhos]

 

se a poesia fosse toda dos homens

e das mulheres

e das vozes discordantes

que enchem a calçada das minhas cidades,

talvez as palavras respirassem vida

e dos cálamos

saíssem veias

e artérias de fogo

e deuses trespassados de som

 

mas a poesia é isso

palavra ígnea

ou não-palavra

palavra antes da palavra,

quando ainda aspiramos ao dom

de poder morrer de amor.

(2011)

 

6.

perguntas-me se alguma vez escrevi poemas

com gente dentro ou se era apenas a voz da

linguagem a inventar nomes, lugares, sons,

a emoção no dedilhar dos dedos plenos

como todos os livros ensinam

 

perguntas-me se alguma vez haverá algum

homem como johnny ou se o velho ethan

encontrará paz num qualquer lugar bem

longe de monument valley

 

perguntas-me se alguma vez escrevi

poemas de amor ou se as pessoas

(as vozes dentro do poema) existiam

como existe o silêncio crescente das neves

 

perguntas-me o que fica por detrás

mas o velho jeremiah nunca pensou sequer

em palavras quando dormia junto com as

estrelas.

(2011)

ENCONTRO TRIPLOV 2026

18 . Abril . 2026

Convento de São Domingos . João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)

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