MARIA ESTELA GUEDES. Foto de MCéu Costa

 

 

 

 

 

 

 


O MEU POEMA MAIS ESTIMADO teve a primeira edição nos cadernos da Incomunidade, com o título de “No Lago Titicaca”, que depois mudei para “Amor inca” – diz respeito a uma viagem a Machu Pichu, no Peru. Título do livrinho, Geisers. Editor era o Alberto Augusto Miranda , colaborador do Triplov, jovem com mais talento do que bom senso, como costumamos ser todos, artistas. Daí o nome atribuído pelo Alberto à associação que criou, Incomunidade, isto é,  grupo de incomuns, de pessoas originais. Quando o meu caderno saiu, já o Alberto Miranda tinha publicado dezasseis, conforme o índice que mostro em imagem, no qual figuram autores portugueses e galegos, entre eles alguns bem familiares, como o Alexandre Teixeira Mendes, o Carlos Pinto Vinagre e o Manuel Almeida e Sousa. Este colabora regularmente no Triplov, sobretudo como artista plástico.

O Alberto não é só poeta nem só editor, ele também é dramaturgo e músico: compositor para teatro, por exemplo, e  um pianista que muito me encanta. Borbotom, que vemos no índice, é um texto para teatro. Cito-me, de uma nota de leitura do livro, publicada no Triplov (1):

Nesta peça em Borbotom, que borbulha e de que correm borbotões do que quiser, as personagens são pessoas e coisas e factos como as árvores de Monsanto e os nossos amigos Incomuns, são eles os dialogantes. Aí encontramos os habituais frequentadores dos filo-cafés, acontecimentos sócio-poéticos de invenção albertiana, em que tudo pode acontecer, desde a cègada ao golpe de génio. Eis alguns deles, os que conheço, semeados entre os poetas da Galiza e os do Mundo: o Nuno Rebocho, o António Cardoso Pinto, o Alexandre Teixeira Mendes, o Aurelino Costa. Também se passeiam pelo TriploV, garantindo, como em Borbotom, que é preciso resistir.

É preciso resistir, Alberto. Tens génio, o teu génio merece sobrevivência.

Como os filo-cafés e as edições da Incomunidade manifestam, o Alberto é um autor muito voltado para os outros, talvez mais do que para si próprio, por isso apresenta-se em geral no meio da sua incomunidade.

Filo-cafés eram encontros de artistas de quadrantes diversos: músicos, poetas, performers, artistas plásticos. O nome dos encontros, tão misterioso, provém do da Filomena, dona do Café da Filó.

Do Alberto há muito mais a dizer, e do meu caderno de poemas também. “No Lago Titicaca”/”Amor Inca” foi traduzido para espanhol pela Maria Alzira Brum, numa antologia de poetas portugueses organizada por Julia Wong e publicada em Lima, no Peru, precisamente. Apenas cinco poetas, sendo os outros:  João Rasteiro, Maria João Cantinho, António Carlos Cortez e Alberto Pereira (2).

Alberto Augusto Miranda

Os filo-cafés eram itinerantes, parte na Galiza e parte em Portugal. Recordo-me do primeiro em que participei, em Petin (Ourense). Presente um artista plástico que ia fazendo o retrato dos participantes, haja em vista o meu, Manoel Bonaval, dedicado com cariño.

Participei noutros, no salão do Orfeão do Porto e em Lamego, no Teatro Ribeiro Conceição, em 2009. Memorável também foi o de Coimbra, no bar A Capella, subordinado ao tema de D. Pedro e D. Inês. Nesse, a que presidiu o saudoso Rui Mendes, apresentei um texto, correspondente à edição de um folheto para a ocasião, distribuído pelos presentes, do que viria a ser A Boba, peça encenada no Teatro Experimental de Cascais por Carlos Avilez, com Maria Vieira no papel da boba, isto em 2009. O filo-café teve lugar em 2006 (3).

O Alberto Augusto Miranda desempenha um papel importante de movimentador e agitador cultural, como é ou foi o meu caso na primeira década do segundo milénio, o que merece da minha parte o maior reconhecimento. Se outros artistas e amigos quiserem juntar-se a mim nesta pequeníssima homenagem ao Alberto, ficarei contente e o Triplov também.

 

 


(1) In: https://triplov.pt/estela_guedes/Ler-ao-Luar/Borbotom/index.htm

(2) Julia Wong, «El respiro inquieto / O respiro inquieto – Cinco poetas portugueses». Outros poetas: João Rasteiro, Maria João Cantinho, António Carlos Cortez e Alberto Pereira. Antologia bilingue. Traduções de Liliana Nunes de G., Maria Leonor F. Crespo, Maribel Sobreira e Maria Alzira Brum. Posfácio de Luís Novais. Lima, Peru, Paracaídas Editores, 2024.

(3) Folheto de tiragem limitada, assinada e numerada de 1 a 200, distribuído no Filo-Café Inês de Castro no repertório galego-português. ÀCapella, Coimbra, 7 de Janeiro de 2006. Britiande, Janeiro de 2006. In: https://triplov.pt/estela_guedes/ines_castro/index.htm