MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA (IA)
O Escaravelho exemplar
O universo de José Emílio-Nelson confronta-nos com a face negra da vida, uma descida deliberada aos recessos da existência em que a morte e o sexo operam como matérias brutas, viscerais. Há uma recusa categórica do Belo fácil, antes a demanda de um Belo inacessível, constantemente sabotado pela imundície do real, ou porque surge a indesejada visita de Porlock.
Neste cenário, reaparece um tema fascinador para nós: o escaravelho. Não é um escaravelho qualquer, sim o Scarabaeus sacer. Ele “agarra-se à Gramática estrumada” e, neste livro, parece empurrar a própria escrita. Já no nosso livro Corpus Corpus (Edições Esgotadas, 2025), este motivo nos tinha chamado a atenção pela tremenda antítese que exprime a sua forma escatológica. Por um lado, o escaravelho carrega a dignidade mítica do Antigo Egito, onde era venerado como o símbolo do Sol nascente (Khepri, a manifestação da auto-criação e do ciclo solar associada a Rá); por outro lado, na sua crueza biológica, é o inseto necrófago que limpa o território, revolvendo a matéria orgânica em putrefação. Esta mesma duplicidade move a escrita de JE-N: fertilizar a imundície terrena guiado pelo negrume dos céus.
Do gag à mordaça
A estrutura de O Homem de Porlock – Film inclui poemas que funcionam como etiquetas em filmes, sínteses de pontos negros que capturam o leitor pelo choque. A atmosfera convoca a herança do film noir a preto e branco, os grandes clássicos, citando ora as mecânicas de suspense e obsessão de Hitchcock (o olho esverdeado de Vertigo), ora a contenção trágica de Carl Dreyer, cujo rosto absorto na penumbra “morde a lágrima”, engolindo a amargura de uma época:
NO ECRÃ, em fundo escurecido, Dreyer,
Rosto absorto que fixa algo, mal se vê.
O esgar da boca morde a lágrima.
Essa tensão conceptual expande-se no uso do termo gagging, palavra que se abre para uma multipolaridade de situações, desde o gag (recurso cómico do cinema mudo que corta a palavra) à mordaça dos filmes porno. De outra maneira dizendo ainda, a linguagem é travada, engasga-se na garganta. Este travão reflete-se na duplicidade e função das expressões colocadas entre parêntesis angulares (como <fazer o nojo> ou <merda, bílis negra>). Parecem pontuações deslocadas para a solitária de uma cadeia, modo talvez de a reclusão as preservar do sentimento de repulsa.
A suspensão, digamos que o Belo interrupto, ou o Liber interruptus, manifesta-se com evidência no título do livro, ao entrar em cena O Homem de Porlock: a interrupção que quebra o transe e estilhaça a ilusão da obra perfeita.
Da escatologia literária à genocida
A grande viragem do livro reside na forma como as particularidades egotistas da obscenidade e da escatologia se alargam a uma visão multipolar e geopolítica. O que começara na solidão do corpo e no fetiche da carne torna-se universal ao chegarmos à guerra, ao telejornal e ao sionismo.
Na secção final, o ecrã do cinema é substituído pelo ecrã do Telejornal, no qual o filme que vemos é o da barbárie quotidiana. A velhice estupefacta contemporânea assiste e consente na “solução final de Abraão”, uma alusão terrível ao sacrifício e ao extermínio justificados por dogmas ancestrais.
DA VEJEZ ALELADA soletro, com salitre na garganta,
Que algo vai mal no corpo são em mente sã,
Daquele que contempla o umbigo,
E ignora, e consente, a solução final <de Abraão>.
Em “Word Press”, a “liturgia sionista” surge como aspersão de leis divinas que, ironicamente, funciona como anestésico, insensibilizando o espetador perante o horror dos corpos reais consumidos pelo fogo. É a denúncia da nossa própria simpatia e cumplicidade coletiva pelo genocídio, transformados que estamos em espetadores passivos de um massacre mediático.
É neste ponto de ruína ética que surge o super-herói USA. E como aparece? Aparece agigantando-se no ar como figura de estupidez impetuosa. A introdução do nome do mártir alemão entre parênteses retos — [Bonhoeffer] — não é mero adereço; é uma intrusão teórica violenta no meio do poema.
O SUPER HERÓI, USA, agiganta-se e voa.
Estupidez [Bonhoeffer] impetuosa castiga a pequenez da alma soldadesca.
Gesto eloquente de retorno a Sião.
Ecos retardados <,o trabalho do film>.
Os soldados dançam sobre cadáveres.
Evoca-se neste passo a célebre “Teoria da Estupidez” que Dietrich Bonhoeffer escreveu na prisão nazi antes de ser enforcado: alegou ele que a estupidez coletiva é um perigo moral muito maior do que a própria maldade, pois o estúpido abdica do pensamento crítico, torna-se imune aos factos e transforma-se num joguete agressivo nas mãos do poder.
O imperialismo americano e o messianismo militarizado fundem-se no mesmo fotograma de guerra, selando o destino de um século em marcha suicida.
O trunfo do pós-Porlock e o devir-polílogo
Embora o livro não se assuma explicitamente como polílogo, somos nós, no papel de comentadores, que deciframos o seu horizonte futuro a partir da reveladora informação que o autor nos enviou no Messenger: este é, adiantou ele, o seu último livro de “poesia”. José Emílio-Nelson deixa um aviso cortante: se voltar a editar, será outra coisa: “ni poème ni roman, mais polylogue”, convocando o conceito que Julia Kristeva formulou no seu ensaio fundamental Polylogue (Editions du Seuil, 1977).
Ao lermos esta declaração, lembramos que o autor já pratica, no avesso deste livro, o polílogo. JE-N nunca foi um poeta clássico; a sua escrita sempre foi um espaço de transgressão, hibridação de géneros e contágio direto com outras artes, patente aqui nas fotografias e pintura de Sebastião Resende — que cruzam a aspereza de uma imagem de arte sacra, a rotação plural de um carrossel e o fotograma imobilizado de uma cena de filme em que vibra a sombra chinesa. O veredicto do insert da contracapa, assinado por Marcelo Ariel, sintetiza com precisão este trunfo de miscigenação: “JE-N mais do que escrever: inscreve o filme do sonho acordado.”
O Homem de Porlock bateu à porta e fechou o ciclo do verso. Mas, ao fazê-lo, não impôs o silêncio: libertou o caminho para o polylogue de Kristeva, isto é, para uma escrita em que a pluralidade de linguagens, a enunciação rítmica da dor e a recusa absoluta do discurso único passam a governar os ecrãs do sonho. Mas vamos repetir: a escrita híbrida, miscigenada com outros géneros e áreas do saber tão distantes da lírica como é o caso da ciência, é típica de José Emílio-Nelson desde sempre. Ele poderá é intensificar ou desenvolver o polilogue no futuro. Exemplo claro da hibridação neste livro ocorre quando injecta a tese política e teológica de Dietrich Bonhoeffer na descrição dos soldados americanos que celebram e dançam sobre cadáveres.
Sim, acusam-nos de sermos cúmplices do genocídio, e somos. Precisamos de unir vozes na revolta, vozes límpidas que sustentem a volta aos valores do Belo e do Bem, por isso ficamos na expectativa do que José Emílio-Nelson nos dará em breve como obra nova.
JOSÉ EMÍLIO-NELSON
O Homem de Porlock – Film
Fotografias de Sebastião Resende, posfácio de Tiago Cfer e insert de Marcelo Ariel
Biblioteca José Emílio-Nelson, # 09
Portugal, 2026, Edições Esgotadas

