“Os grandes transparentes” no MAPA DE VIAGENS
Apresentação (após o indicativo musical)
Professor universitário (doutorado em Antropologia), antigo operador especialista no laboratório da polícia científica (PJ), membro destacado da maçonaria regular e, principalmente – no caso a que nos reportamos – grande conhecedor dos mundos esotéricos e hermetistas, José Manuel Anes proferiu conferências no país e no estrangeiro e participou em espaços televisivos e radiofónicos debruçando-se sobre a sabedoria tradicional e diferenciados ramos da mística.
Publicou também diversos textos e livros sobre o tema alquímico, as casas iniciáticas e o mundo de pensamento interior de Fernando Pessoa.
É pois com muito gosto que dou as boas-vindas ao nosso convidado desta noite. (música)
Introdução
A expressão “os grandes transparentes” usa-se para aludir, em geral, aos enigmas do Universo. Foi cunhada pelo poeta André Breton, que durante toda a vida foi um exemplo de que ao amar a existência em todas as direcções e não apenas nas consentidas pelos detentores da “sabedoria de Estado” (ou seja, o discurso académico do Poder) o homem comum afixava o sinal mais alto da verdadeira inteligência prática (a que ultrapassa o existir convencional e limitado). Ou, se o quiserem, da verdadeira santidade civil – que é a dos que sabem reconhecer a sua figura no espelho dos anos, sem sombras enevoadas repelentes ou falsas – fideístas ou profanas – acocoradas a um canto da alma do Homem e forjadas pela superstição, o atraso relacional e as tretas difundidas pelos mass-media sensacionalistas.
Num mundo pretensamente religioso mas, afinal e segundo estimativas seguras, onde 82% das gentes ledoras consultam os horóscopos publicados nos jornais, importa interrogarmo-nos aqui e agora sobre o verdadeiro rosto do mistério. Ou da face escondida do quotidiano, digamo-lo desta forma, uma vez que hoje por hoje, como bem o demonstrou Jacques Bergier, as linguagens específicas e especializadas dos astrofísicos ou dos cirurgiões de ponta, por exemplo, constituem autenticos dialectos reservados, segregados do dia-a-dia por razões compreensíveis e nada censuráveis. (música)
Mas o nosso mundo sente de novo, neste quarto de século, uma fascinação pelo oculto que não tenta camuflar. As próprias religiões reveladas funcionam frequentemente mais como lugares de ritual sem o qual os fiéis, na sua grande maioria, se escapariam a sete pés da sua re-ligação primordial. Ou seja, castrado durante muitos lustros pelo racionalismo estreito que interessava ao poder mercantilista, político e hierárquico incrementar e manter, esvaziado interiormente pelas pseudo-metafísicas de choque, o ser humano tenta voltar-se para outro tipo de realidades ou de crenças com maior apelo e que aparentem maior brilho ao seu imaginário.
Umas não são mais que mistificações grosseiras, ainda que envoltas numa retórica que tenta mostrar-se plausível, como a astrologia de divulgação de massas. Outras, tendo uma tradição e um passado nobre e positivo, como a hipnose científica, vêem-se sem querer misturadas com a enxurrada espúria da espectacularidade de feira e sofrem com isso a incompreensão da turba. Nada mais natural, se atentarmos no velho rifão que nos diz que é frequente pagar o justo pelo pecador.
Hoje em dia, mercê do desenvolvimento cultural e da difusão informativa, já se percebe melhor qual a verdadeira figura que o enigma assume. Já não há tantas sombras no espelho dos mitos. A própria psicanálise e a psiquiatria, durante largo tempo objectos de trabalho posto nos píncaros por certos ramos da medicina, passaram em razoável parte a estar ao serviço dos aparelhos controladores de mercado e da repressão social de estados totalitários, sendo demasiadas vezes privilegiada pelos tecnocratas e sectores autoritários oficiais e oficiosos e servindo deficientemente o cidadão e os seus direitos inalienáveis.
Ainda que, principalmente depois do puxão de orelhas que o profundo investigador e cientista Thomas Szas lhes aplicou num Congresso Internacional que ficou célebre, já se movam com maior humildade e menor jactância. (música)
Seja como fôr, os estudiosos de hoje possuem já maior espaço de manobra para situar apropriadamente os reais dados da questão, podendo efectuar com razoável eficácia a separação entre mistificações e possibilidades a considerar com seriedade no vasto continente que é o interior do Homem e que indubitavelmente nos reserva ainda um vasto continente de mundos a descobrir e a conhecer melhor.
A seu modo, em suma, os investigadores do mistério – encarado no sentido lato – glorificam a vida inteligente e salutarmente forjadora do conhecimento que antecede a sabedoria possível, que nenhuma capelinha, seja fideísta ou laica, pode hoje reclamar como exclusivamente sua ou, como em certo passado felizmente em parte extinto, manipular de maneira a obscurecer o autentico e luminoso rosto de Prometeu e de Adão. (música)
(No decorrer do programa, ao sabor do diálogo com José Manuel Anes e no qual foram abordados assuntos tão diversos como a astrofísica moderna, a alquimia e lugares iniciáticos, as teorias analíticas “outer space” e as descobertas contemporâneas efectuadas na América do Sul, no Egipto e em certas ilhas da Oceania, foram lidos poemas de H.P.Lovecraft, Mário Cesariny e Rainer Maria Rilke, além de pequenos excertos de Eliphas Levi, Fernando Pessoa e James Conant.
Foi, ainda, lido o texto de apresentação e análise crítica, que aqui se dá também a lume, do filme “A noite da águia”, de Sidney Hayers, um dos grandes cultores do cinema fantástico, exibido no dia seguinte em complemento do programa).
CONTINUIDADE
P. Lovecraft
Há em certas coisas antigas um vestígio
De nebulosa essência, além do peso e forma;
Um éter subtil, indefinido
Ligado às leis do tempo e do espaço.
Um débil, velado signo de sequências
Que os olhos de fora descobrir não conseguem;
Suas cerradas dimensões – onde os anos idos se acoitam
Só por secretas chaves se devassam.
Comovo-me quando os raios do sol ao entardecer
Alumiam as velhas casas da quinta frente ao monte
Colorindo de vida as formas que perduram
De séculos mais reais que este que conhecemos.
E nessa estranha luz sinto que não estou longe
Dessa massa imutável em que as faces são as épocas
Filme A NOITE DA ÁGUIA
Considerado uma das obras-primas do cinema fantástico anglo-americano que tantas películas importantes nos deu (Frankenstein, Contos da Tumba, Drácula, Lua Vermelha, O Duelo) “A noite da águia” apresenta um rol impressionante de especialistas do fantástico, a começar pelo principal argumentista, Richard Matheson – provavelmente o melhor autor de novelas fantásticas do nosso tempo (a extraordinária trilogia “Shock”) – passando pelos actores, Peter Wingarde e Janet Blair, findando no autor da novela donde foi extraído o filme, o justamente famoso Fritz Leiber.
Mas o que é, em suma, o fantástico? Dizia Miguel de Cervantes “Eu não creio em bruxas, mas lá que existem, existem”. Simplificando, mas de forma adequada, diremos que o fantástico ocupa o espaço de uma dúvida, mantendo a sua existência durante o tempo dessa ambiguidade fascinante que leva o Homem a viajar na direcção dos mais antigos e nebulosos mistérios do Universo, criando uma surpresa ante a qual se espanta e obrigando-o a recordar, por um fugaz momento que seja, os terrores atávicos que pulsam ainda hoje no mais íntimo de si mesmo. O fantástico representa um corte, uma quebra na razoabilidade dum quotidiano que cremos estável, sendo como é uma interrogação entre o inabitual e o que se nos apresenta desejavelmente como real. Ou seja, com efeito, esse lugar de trevas atravessado pelo clarão súbito de mil sóis referido por Claude Beylie. Entre o sobrenatural definido (que é outro género, o maravilhoso) e o dia-a-dia indubitável e sem surpresas repentinas, o fantástico cumpre a sua tarefa de lançar o espírito humano nas caves, nas salas assombradas, nas criptas recônditas do seu inconsciente. Para que, passado o abismo do mal, delas regresse transfigurado, redimido, purificado, inteiro. Em última análise, o fantástico possibilita o triunfo do Ego sobre o Superego utilizando as armas escondidas por este último.
O mistério é a sua ponte de passagem para o claro dia, a verdade.
Como se sabe, infelizmente os frankensteins e os dráculas existem – metamorfoseados em cientistas atómicos, em manipuladores mediáticos de consciencias, em homens públicos ardilosos e burlões urdindo manobras dirigidas a quem fingem acatitar com afectos, em colectivistas destituídos de respeito pelos cidadãos que buscam cinicamente usar para os seus fins. O fantástico, na literatura e na arte, pictórica ou cinematográfica, coloca-os frente á sua imagem real, como num espelho paradoxal. Trá-los á luz da natureza que eles procuram obscurecer, pois, segundo o provérbio, é com a manhã que os fantasmas se vão.
Num recente escrito, referia Cláudia Villi que o nosso mundo está repleto de realismo na Arte, ao passo que vai mergulhando pouco a pouco no irrealismo dum quotidiano social. Deu-se portanto uma troca de posições. Tal facto reflecte a necessidade que o poder, abusivamente, tem de misturar o discurso intelectual com as suas escórias, para melhor incluir a tecnocracia ou o fideísmo autoritário na vida comum, falseando os problemas fundamentais do nosso tempo.
É precisamente contra esse pretenso realismo – o conhecido a vida tal como ela é das enxurradas de telenovelas, por exemplo – que o cinema de imaginação se confronta, reconduzindo ao plano exacto os dados da questão, pois é através desse espelho imaginativo que o Homem, qual personagem de Lewis Carrol ou de Roald Dahl, pode passar definitivamente para o lado efectivamente real – o real absoluto dos verdadeiros sábios-cientistas sem preconceitos, dos poetas sem quinquilharias ou tagarelices fraudulentas, dos artistas cidadãos que os oportunistas tentam macular no universo dominante com que ainda hoje nos estorvam cavilosamente.
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