ALEXANDRE HONRADO
Alexandre Honrado. PhD |Cultural Studies – University of Lisbon.
Pós-doutorando Universidade Aberta.
Se o mundo fosse belo dispensaria a arte. Dissolver-se-ia a literatura, num chão que, coberto de folhas, passaria ao nível de outro solo que os novos caminhantes conheceriam, sem reconhecer o chão que, jazendo sob as folhas, agora passariam a pisar. Por outras palavras, “como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas[1]” (KAFKA; Aforismos:15.).
Kafka reconhece o ser humano real tal como é; não se coaduna com hábitos, nem com os habitantes dos hábitos; é reconhecimento. Ou como afirma Albert Camus[2]: é releitura. “Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler”, diz-nos o escritor franco-argelino.
Só alguns, muito poucos, os eleitos, se permitem reler, disponibilizando-se com altruísmo para as releituras. Por isso a literatura menor – sim, na linha de uma expressão consagrada por Gilles Deleuze e Félix Guattari -, é uma enorme literatura para minorias. Para os disponíveis. Os inconformados. Os que releem e nunca se repetem no que adquirem em cada leitura.
Não é a prosa de Kafka que desnivela, mas as muitas e contraditórias leituras dela feita, esdrúxulas e pontiagudas, que exigem o acerto de um fio de prumo, de uma bitola analítica. Um alisamento sem determinismos, mesmo assim.
Como encontrar o caminho para o absurdo quando se insiste numa mobilidade presa numa estranha sensatez?
O melhor será ler e reler Kafka – ou simplesmente ignorá-lo. O génio do autor não se perderá, já que a falta de génio do leitor pode omiti-lo.
Na obra de Franz Kafka, há falhas – ou melhor, há não acabamentos, textos de final adiado, rascunhos de projetos nunca finalizados-, desenlaces interrompidos, frases que não acabam, textos que podiam ter ido muito mais longe. A própria obra parece escassa, mesmo tendo em conta a vida do autor, vítima de tuberculose, aos 40 anos de idade (morreu perto de Viena, em Kierling, em 1924 e depois de sete anos de luta inglória contra a tuberculose).
O seu legado, textos sem conclusão ou com interrupções inesperadas, não é impedimento para se ser leitor fiel de Franz Kafka: o que falta de desenlaces transborda de enlaces. Pregar os olhos no livro, sentir o ambiente denso/tenso e as sensações a adensarem-se/intensificarem-se, tornar o horror, o terror, o medo, o ponto final das soluções como parceiro de aventura literária, como via para a esperança, é o segredo. E essa ambiência não se estabelece por etapas ou gradativamente: por vezes começa na primeira linha, no primeiro parágrafo (o eterno exemplo é o início de A Metamorfose que mostra como um caixeiro-viajante acorda transformado num ser vivo repelente e, todavia, se mantém mentalmente humano; o corpo de cada um de nós não será apenas um veículo, um elemento descartável, uma carapaça inútil para o que pensamos, para o que ignoramos, ou para o que podíamos pensar e descodificar com inesperados proveitos?).
Com Kafka, somos um animal repugnante que pensa como os humanos (A Metamorfose); somos o agrimensor que desconhece o seu destino: K., o protagonista do romance inacabado O Castelo, de 1922 – Das Schloss, romance inacabado e póstumo, publicado em 1926 -, perde-se em deambulações inúteis e num alheamento angustiante, o que é uma contradição para quem exerce uma profissão que demarca terrenos e os delimita, tornando-os próprios para a construção de edifícios e equipamentos afins; somos o imenso corpo humano deitado numa máquina que o escreve, que o tatua sem piedade, Na Colónia Penal (In der Strafkolonie, 1914). Sobretudo, somos a leitura que queremos, como órfãos a quem o pai já não projeta a sombra imensa da presença e da ausência, do poder, da inclemência, dos receios (Carta ao Pai, em alemão Brief an den Vater datado de 1919), permitindo-nos o caminho sem respostas de uma aventura individual, igual aos desafios de todo o ser adulto entregue às suas escolhas ignotas.
Albert Camus escreveu um texto sobre Kafka que entrou, saiu, tornou a entrar em edições do seu livro (obra exemplar) O Mito de Sísifo. O texto previsto para a primeira edição da obra foi substituído por outro, intitulado Dostoievski e o suicídio. O texto sobre Kafka foi publicado na revista L´Arbalète e só depois incluído em reedições de O Mito.
Camus, a par com muitos escritores tocados pela violenta magia kafkiana, assumiu o lado intenso provindo do absurdo que o boémio dominava como mais nenhum. O Mito de Sísifo é um ensaio sobre o absurdo, de acordo com o escritor de origem argelina, consagrado pelo Prémio Nobel da Literatura em 1957. No texto consagrado a Kafka, nessa obra, lemos:
Vem sempre um momento em que o espírito nega as verdades que essas mãos podem tocar. Vem sempre o momento em que criação já não é tomada ao trágico: é tomada somente a sério. O homem ocupa-se então da esperança. Mas não é isso que lhe respeita. O que lhe cumpre é afastar-se do subterfúgio. Ora é ele que eu encontro no termo do veemente processo que Kafka intenta contra o universo inteiro. O seu incrível veredicto absolve esse mundo horrível e desnorteante em que as próprias toupeiras se atrevem a ter esperança (CAMUS; s.d.; p.178)[3].
Conclusão: recomenda-se como linha de investigação prioritária o reler Kafka – ou ignorá-lo.
Não há terceira via.
NOTAS
[1] KAFKA, Franz. (2008). «Aforismos» Escritos na localidade histórica de Zürau. Lisboa: Assírio&Alvim.
[2] CAMUS, Albert. (s.d.). O mito de Sísifo ensaio sobre o absurdo. Lisboa: Edições Livros do Brasil. Apêndice:
[3] CAMUS, Albert. (s.d.). O mito de Sísifo ensaio sobre o absurdo. Lisboa: Edições Livros do Brasil. Apêndice: Estudo sobre Franz Kafka. Pp. 157-178.

