MARÍLIA MIRANDA LOPES

 

 

 

 

 

 

 


Simetria CP

 

O antipoema não se revela, senão por segundos.

Nas condições estranhas do anti-hidrogénio,

o antipoema assimétrico

acende os seus núcleos de significado.

 

Noutra realidade oposta,

o antiverso parece inverter

sentimentos e razões

pelos quais é escrito.

 

A transformação desta verdade

ocorre num movimento espelhado:

 

um antiverso de coração do lado direito,

bate e pulsa com a mesma química:

o mesmo grau de lume incerto,

o mesmo outro rosto dentro do resto.

 

Marília Miranda Lopes (Junho de 2025, inédito)


Reiquiavique

 

Um dia hei- de ir a Reiquiavique

ou a qualquer outro lugar, desde que floresçam

nas minhas planícies internas

botões ternos de mudança.

Sonho às vezes com lagos quânticos,

e cordilheiras de afectos.

Busco a nota que musique

o calado esqueleto,

o mudo cipreste,

estagnados no quinto escalão

duma perda brutal.

 

Um dia hei- de ir a Reiquiavique

com neve nos pés ancestrais.

Um dia, enfrentando o que vier,

surtirá em mim a ledora de trilhos,

a tradutora de auroras boreais.

 

Mas, talvez nunca chegue a sair daqui

e me confortem apenas as serras que me cercam:

nelas persisto sem preparação,

como se me bastassem os versos,

sem bilhete nem viagem nem veículo,

sem ideia sequer de pequena ou grande

dimensão.

 

Um dia hei – de voltar de Reiquiavique.

(inédito)


Absentia Belli

 

Sem guerra devia o mundo girar

no seu equilíbrio de azul: penedo

solitário viajante, de rota certa

na escura imensidão, em paz e credo.

E nesse desígnio de bem maior

continua a rodar, em marcha viva,

mantendo-nos vivos, sem sobressaltos.

Mas, o grande problema é que deixámos

de ouvir os seus murmúrios lá nas ondas

que lavam e levam sangue: arruinámos

a paisagem de fora e a de dentro,

a harmonia e a paz com as nossas bombas:

uns contra os outros, em actos hediondos,

tornámo-nos desumanos e tristes,

em conflitos e em lutas tão tremendos,

que já perdemos a conta de quantos

morreram em nome da iniquidade.

Martin Luther King disse: “O que me assusta

(…) é o silêncio dos bons” – esse medo

que nos priva de liberdade justa.

Nelson Mandela sonhou com o dia

em que todos pudessem, enfim, viver

democraticamente, como irmãos.

Sem ódio, sem desigualdade, ou fome

a nave giratória que é o Sonho

já podia erguer a Pomba, em sinal

de uma vontade mudada em amor:

força, energia, criação e Graal.


Mulher-ascendente

 

Urge o teu retorno, mulher-criatura

Do princípio das eras, do âmago.

Urge a tua liberdade, a tua voz

Abafada pelos ditadores do mundo.

 

Urge tempo consagrado a ti mesma,

Mulher criadora de marés e ventos,

Espírito galáctico de amor,

Na sua dança circular, maior

Do que os limites de qualquer sistema.

 

Urge o teu regresso, ó mulher-poema

Vinda dos campos, vinda do espaço,

Proferindo versos não programados

Contra a hipocrisia de quem corrompe

A liberdade, a justiça, o respeito.

 

Urge a sinapse, o salto, a catapulta,

A transformação desta vida bruta:

Acordar não pode ser um martírio

Transmitido em direto nos aquários.

Urge o teu Verbo, só reverberado

Num regaço de mãe, após o parto.

 

Assim, enquanto não gritas, o teu nome

Vai constando nos autos, nos jornais,

Nas redes pesqueiras de vãos perfis:

“Vítima de homicídio”, de violência,

Morta na estrada, em casa, em decadência.

 

Assim, enquanto em ti dormir a Deusa,

O desnorte é um quotidiano demente

na bruma que trazes ainda suspensa.

 

Desse nevoeiro secular, novos genes

Trazem links de vitória e de mudança

Que dentro do teu ventre esperam vez:

 

Que nasçam Pioneiras e não Primevas,

Que sejam mais «Elas» e não as Evas

Pecadoras, culpadas e então expulsas

Dos paraísos que havia dentro delas.

 

A cada mulher, o traço cambiante:

Água que lhe lave o curso da história,

O curso da mente, o semblante pesado,

Água de rosa que no rosto avive

A curva expressiva e rubra, ascendente.


Baladeiros da Liberdade

 

Cante-se o Grândola, o motor, a revolução,

O delírio de haver outro país e gente nova.

Cante-se “educação, paz, saúde, habitação”,

Cante-se contra o fascismo uma boa trova.

Cante-se a terra para todos, as cooperativas.

Cante-se a criança a semear nas armas flores.

Cantem-se as alegrias dos livres dando vivas

A todos os que acreditam em dias melhores.

Cante-se a expressão felina do pensamento,

Cante-se a verdade e a lucidez dos poetas.

Cante-se a igualdade e o homem são, isento

Do medo e da culpa, essas portas tão travessas.

Cante-se com Paulo, Sérgio, Jorge, Cília e Zeca

Sem receio agora das antigas censuras.

Cante-se com José Mário, Vitorino e Freire

Cante-se contra os vampiros d’outras ditaduras.

Cante-se Mário, Manuel, Ary e Adriano

Cante-se o génio de todos os que inventaram

Uma forma de dizer “não!” com a cantiga,

Acreditando na utopia e na liberdade.

Cante-se de novo Abril, Natália, Sophia,

Que do mundo ergueram Verbo e voz clara e justa.

E cante-se o cravo vermelho e a poesia,

Pelos séculos que o farão a flor imortal,

Porque a memória é a nossa hélice robusta

E nós, um povo sempre em luta contra o mal.

 (in «São Cravos – 50 anos de Abril, 100 poemas», Ed. Labirinto, 2024)