ALEX P. ZINGA (IA) & MARIA ESTELA GUEDES


Poemas publicados originalmente na revista The European English Messenger.
Volume 14.1, Spring 2005, Portugal


 

O sexo do clipe

 

Os clipes, na noite, entram e saem.

Suaves. Lisos. Deslizam. Cercam. E trancam-se

sem sequer um “espera”, “não”, ou

“ai”. Nas nossas secretárias,

este sexo não exige esforço.

 

Nada como as nossas palhaçadas matinais

quando procuramos um e aparecem dois,

três, até grupos. Não conhecerão limites?

Um par convidará um terceiro,

e depois enredar-se-á com ele. Ou com ela, conforme o caso.

 

O género não é um problema. Eles ponderam

por que razão, em vez de acasalarem,

os poetas escrevem sobre isso.

 

 

O Sentimento das Meias

 

Acontece nas melhores famílias. As meias extraviam-se.

Culpem a monogamia. Elas não a suportam.

E sozinhas, apaixonam-se

por toalhas fofas e soutiens push-up.

 

Na maior parte das vezes, encontram outras meias

que se assemelham às suas parceiras de quando eram novas.

 

Por isso, azul com azul, preto com preto,

embora nenhum par combine. Eu sei

que é um desafio. Lavar a roupa

é uma canseira. Mas considera isto —

 

mesmo nas suas errâncias num mar de espuma,

elas procuram os seus próprios primeiros amores.

 

 

 

Cuidado com o que desejas

 

Dizem que os arco-íris são, na verdade,

círculos. Está certo.

 

O que vemos é apenas metade.

Naquela mancha de óleo ou chuva

 

há mais do que tínhamos pensado.

Vejamos os dentes do Arthur,

 

quando os cães lhes deitaram a mão,

ele ficou a vê-los comer.

 

Feliz como a criança em que se tornara,

sentou-se, a catar o tapete entrançado.

 

E a mulher na casa que ele não sabia nomear,

desafogada por cinco minutos,

 

fez sopa e cantou.

 

 

 

O que fazem as mulheres na cama?

 

As suas pétalas pressionam,

Fazendo novas flores,

 

Divorciadas de caules,

Libertadas de raízes,

Livres de frutos.

 

Elas “liriam” o quarto,

Inebriantes por horas.

 

Depois, tal como qualquer variedade,

 

Uma cai

Antes que a outra esteja pronta.

 

 


Georgia Scott

Georgia Scott é o pseudónimo literário de Cheryl Alexander Malcolm. Norte-americana, nascida em Boston, formou-se nos EUA e em Inglaterra, mas é uma verdadeira “cidadã do mundo”. Vive há muitos anos em Gdańsk, na Polónia, o que explica o tom tão particular da poesia dela — aquele cruzamento entre o pragmatismo americano e a melancolia histórica do Leste Europeu. Na Polónia, exerce o magistério como Professora Associada de Literatura Inglesa na Universidade de Gdansk. A sua voz poética, moldada pela condição de expatriada e por um olhar clínico sobre as relações humanas, ganhou fôlego em obras como The Good Wife (2001) e The Penny Bride (2004). Para além da criação original, Scott é uma ponte entre culturas, tendo colaborado na tradução de importantes antologias de poesia polaca para a língua inglesa, consolidando-se como uma figura central no diálogo literário europeu contemporâneo.

A poesia de Georgia Scott nestes textos revela uma capacidade invulgar de transfigurar a banalidade doméstica em revelação existencial. Seja através da antropomorfização de objetos simples — como o erotismo mecânico dos clipes ou a infidelidade errante das meias no “mar de espuma” da lavandaria — ou da observação da decadência física e da memória, a autora utiliza o humor e a ironia como ferramentas de precisão. Scott explora a tensão entre o que vemos e a totalidade do que existe (os arco-íris que são círculos completos), oferecendo-nos uma lírica que é, simultaneamente, acessível na forma e densamente metafórica no conteúdo. O corpo e a natureza fundem-se em imagens de uma beleza crua e efémera.

 

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