Truth matters

 

 

 

CARLOS ANTÓNIO CARVALHO ACABADO


Se, como um homem de espirito, disse: o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes, o “caso” Prestianni será para aí o maior escândalo de um tempo e de um mundo onde proliferam assassinos em massa como Maljamin Netaniahu ou esse orangotango alaranjado e desgracioso que é Donald Trump, duas das mais escandalosas e notórias aberrações que imaginar se podem e perante as quais o assedio mediático e comentadeiro (já não lhe chamo idade mídia mas Cavalidade Média nem ser preciso explicar porquê!…)

ao jovem argentino acusado de proferir expressões de cariz racista no decurso de uma partida de futebol; perante as quais dizia o desagradável (possível?) incidente envolvendo o futebolista profissional do Sport Lisboa e Benfica e um outro profissional de futebol mau grado o que politicamente vemos estar a acontecer por esse mundo fora com o ascenso de uma extrema direita essa sim declaradamente racista—circunstância que é de algum modo difícil não ver ligação com esta, caso se confirme o racismo eventualmente contido na alegada exclamação ou exclamações de Prestianni.

Eu faço questão de voltar a sublinhar dois factos à luz dos quais as reflexões que se seguem devem ser lidas: facto número um: sou há já mais de oito décadas tão assumida quanto (eu dira:) seminalmente benfiquista algo que poderá em tese para alguns limitar a minha objectividade perante o “caso”, facto número dois: sou neto de uma senhora negra pelo que, para mim pessoalmente, o racismo não é coisa que me passe ao lado e que eu encare com o distanciamento tranquilo de muitos—em Portugal e não só…

Dito isto, será tempo de passarmos à efectiva essência das coisas: primeiro Vinicius Jr. o acusador aponta o dedo ao argentino do ‘meu’ Clube, o visado na acusação nega e não possuímos matéria probatória capaz de confirmar uma coisa ou outra. se me dão licença, evoco aqui um outro caso ocorrido comigo, um colega de liceu e uma professora de português entretanto falecida e de quem guardo a memória de uma pessoa implacável e nem por isso particularmente justa cujo nome vou guardar para mim. Foi o caso do meu colega de turma ter tido más notas para punir as quais o pai terá mandado que lhe cortassem o cabelo à escovinha—circunstancia que lhe valeu a alcunha de “Pêssego careca”.

Tendo colocado a pasta com os livros e cadernos no chão encostada à carteira dela tive de extrair qualquer objecto de queº–confesso—mais de sessenta ou setenta anos passados—já não me lembro. No movimento de me baixar e introduzir a mão na pasta, tive a triste ideia de olhar para o fim da fila de carteiras na última das quais, junto à parede, se sentava o Barbosa—era esse o nome do meu colega o qual, para meu espanto e—porque não dizê-lo?—profundo temor se levante e dirigindo-se ao estrado da professora, se sai com esta: “Setora, este menino chamou-me pêssego careca!” tenho ideia de que amedrontada da temível docente, a turma fez um silêncio que se deve ter…”ouvido” no vizinho mas, ainda assim, relativamente distante cinema Royal—se não mesmo no largo de Sapadores ou mesmo na Angelina Vidal já a caminho dos Anjos..

Chamaste?—inquiriu a temível mestra com ar de advogado de acusação.

“Não chamei, não, setora! Nem abri a boca. Olhei casualmente para trás mas não disse nada!

Era a palavra dele contra a minha e a do “Baleia” como era conhecido no liceu que atestou não me ter visto dirigir ao Barbosa quaisquer palavras o colega anafadinho sentado entre mim e o Barbosa. Então não é que a virago sentada na secretária grande diante da turma dispara implacável: Não! Se o teu colega diz que chamaste é (e cito de cor porque ainda hoje me arrepelo só de pensar na clamorosa injustiça que se praticava ali) é porque chamaste. Vais para a rua com falta de castigo!”

A professora—disseram-me—já morreu mas a memória de uma arbitrariedade escandalosamente imperdoável essa ficou até hoje e não está, como por aqui se comprova, esquecida.

Eu defendo que o mister de professor não se ensina—aprende-se com a experiência e as vivências desde logo as de aluno e eis que algumas (muitas!) dezenas de anos mais tarde, já formado e eu próprio docente, no meio de uma aula, oiço da “plateia” à minha frente uma voz estridente que se me dirige:” Setor! O Fulano chamou-me um nome feio!” e de imediato uma voz indignada: “Não Chamei, não, setor! É mentira!”

Com o deplorável incidente do Gil (Vicente) na lembrança, solicitei à mocita acusadora que me dissesse que “nome feio” o colega lhe tinha chamado: “Não hás de querer que eu ignore a palavra dele e aja com base na tua como se a dele não existisse. Admitirás que não é justo! A mocita hesitou mas enchendo-se de coragem lá disse, imagino que vermelha de embaraço: “chamou-me alentejana!

”Mas isso, desculpa lá, mas não é um nome feio. Olha! a minha família é quase toda ela originária do Alentejo e não creio que alguém se tenha queixado ou sentido vergonha disso… Mas o menino Fulano, fica já a saber que a sua colega tem nome e que, se volta a usar a expressão que usou vai mesmo para a rua e com falta!”

Tudo isto, ambos os incidentes, me acorreram à memória perante o “caso” do Estádio da Luz—e sobretudo perante o rol de sermões e bem pensâncias que se lhe seguiu, noa jornais, nas televisões e por aí adiante: o que eu constato é que a circunstancia da aula de Português do velho Gil se repetiu: “Se o Vinicius diz que o jogador do Benfica lhe chamou macaco, é porque este lhe chamou macaco e pronto! O racismo é algo horrível—horrendo e desprezível, inmaginavelmente estúpido, indigno e miserável—e há que extirpá-lo de forma “exemplar” punindo o prevaricador. Eu próprio tantas vezes vítima de preconceito posso imaginar o que o jogador brasileiro sentiu se honestamente acredita ter sido vítima de insulto racial mas nem por isso deixo de perceber como se terá sentido Prestianni se a acusação não é verdadeira e resulta de um lamentável equívoco.

e—já agora, para terminar: eu sou de Germânicas, não sou de Direito mas perante títulos como um do Correio da Manhã de 19.02.026: “Prestianni Arrisca Castigo Pesado Para Servir de Exemplo” não posso deixar de pensar que há uma enormidade jurídica óbvia e particularmente perigosa, ou seja, se é para servir de exemplo, não se pune um indivíduo por uma neste caso apenas possível falta: usa-se a pessoa para falar a terceiros—o que é muito diferente! Isto é pune-se uma pessoa não pelos seus erros mas também pelos possíveis futuros erros de outrem. Como digo, não sou de Direito mas acredito que um cidadão não pode ser punido por delitos que não, única e exclusivamente por aqueles que ele mesmo comete—e a verdade é que, com excepção de um texto assinado por José Manuel Delgado n’ “A Bola” tudo quanto li e ouvi, mesmo muito bem intencionado, sobre o episódio da Luz dá por adquirido que é Vinicius não Prestianni quem diz a verdade—elidindo-se deste modo a presunção de inocência e o direito de cada cidadão apresentar—e ver respeitada—a sua defesa, a defesa da honra lhe chamam na dita “casa da democracia”—e não deve ser por acaso…

 

 

  Carlos António Carvalho Acabado