JOSÉ RIBEIRO MARTO
Há um desacerto de vozes fora da estação ferroviária, autocarros furam nevoeiro, sacodem passagem. O som de velocidade vai-se extinguindo. Um homem, já velho, irrompe a reclamar: por que razão aquela porta está fechada? Aquela porta deveria estar aberta!
Com a mão direita puxa, a custo, uma mala que rola mal; na outra leva pendente uma gaiola envolta num pano vermelho, passado aos quartos por cordéis.
O homem tenta abrir passagem por entre gente imóvel, guardando haveres, à espera de bilhetes comprados por familiares, ou gente de passagem que lhe surge na frente. Não há quem não se mova, rode com dificuldade, dê toque de perna a mala, leve pé a sacos e os arraste, murmure contrariedade, encalhe em quem passa a caminho de cais diferentes.
No fio interrupto de gente vestida de azul-escuro, castanho e preto natalícios, há passageiros que dizem qualquer coisa, deitam olhos à gaiola, depois sobem-nos para ver o homem. Passam a farfalhar sacos de papel e plástico, pacotes de cartão; vão rolando rodas. São horas certas de comboios e são-no também de início de trabalhos fora da estação.
Na rua fechada ao trânsito, ouvem-se assobios; já metralham as betoneiras. O homem fala sozinho, aconteceu qualquer coisa à ave, uma arara. Está inquieto. O arame da gaiola parece-lhe amachucado. O homem sobe a voz: Miserável, miserável taxista! Fiz tanta viagem com a gaiola ao colo, tanta !O bandido atirou-a para o porta-bagagens. Desconfiei, mal lhe indiquei o destino. Na aflição levada, o homem encontra espaço: acomoda a mala a um canto, eleva depois a gaiola a custo à altura do rosto, espreita. Vê a asa verde da arara manchada de sangue e exclama: Coitadinha, coitadinha: Miserável, miserável taxista! Fiz tanta viagem com a gaiola ao colo, tanta! O bandido atirou-a sem dó nem piedade.
O homem está desorientado. Não sabe o que fazer. Tem a ave nas mãos. Passa gente que olha demoradamente. Ele vai repetindo que não há nada para ver. Não sabe se embarcará ou voltará para casa, não sabe como dará socorro imediato à ave. Não há quem não repare nele: a gravata cinzenta atirada para trás, penas verdes no gorro preto, duas estrelas de sangue na camisa, o casaco em cima da mala para agilidade de movimentos. Está rente à parede e continua a murmurar aflições.
Passageiros dissimulam curiosidade e reprovação, param haveres, dão indicações de cuidados, param sacos que num ápice desuniram abas; há nós a reforçar, olhos caídos nos cachos de fitas dos presentes. A ave está no punho fechado do homem, uma asa pendente desequilibra-a, ele acode num lamento: coitadinha, coitadinha!
O homem não segue viagem. E, já não há movimento de gente e haveres no cais. Uma criança passa vagarosa a caminho de outra plataforma adiante; está prestes a chegar outro comboio, que trará a avó. Os pais animam-no. O menino fica uns passos para trás do pai e da mãe e pergunta: voa?
O homem comove-se. Já pôs a arara na gaiola, compôs o pano, puxou os cordéis, vestiu o casaco. Vai agora a caminho da porta principal da estação. Lembra-se das crianças que acudiam à esplanada, vindas da escola, sós ou com as mães: ficavam paradas a observar a ave empoleirada no ombro. Empurravam -se, sopravam, batiam palmas, sapateavam o chão. A ave permanecia indiferente, majestosa, no seu pouso, enquanto ele feliz de jornal dobrado à frente, sabia que as crianças davam largueza ao encantamento. Este Natal nem os sobrinhos- netos a veriam, nem a irmã, sempre quezilenta, contenderia com ele, porque a arara causava rebuliço de penas por todo o lado.
Nem ouviria que os bisnetos não lhe atendiam a cuidados: desorganizavam tudo, pulavam nos sofás, faziam cair de escantilhão os bibelots, investiam contra a árvore de Natal. Ora queriam a ave na árvore de Natal, ora a queriam mostrar da janela a quem passava. Era um desassossego! Os cães da vizinhança ladravam; os gatos, nos muros, ajoujados ao sol abandonavam os pousos.
Era preciso pôr a arara na gaiola, cobri-la com o pano vermelho, atravessar os cordéis e deixá-la descansar. Era preciso que a conversa entre mãe e filha ganhasse norte sob o halo da farinha, do limão e das frituras.
Não era preciso tanto frito… Ninguém os comeria. As filhas quando viessem buscar as crianças, queriam só umas coisas.
Nem na véspera de Natal !? gritava a irmã!
A criança que tinha passado e perguntado se a ave voava , fê-lo pensar sobrinhos netos, por momentos. A Avelina e ele não iriam – . A Avelina tinha uma asa partida _ maldito taxista! O homem não sabia como socorrê-la; já não estava ninguém no prédio, no restaurante onde almoçava, ninguém atendia. Não sabia que autocarro apanhar, nem que socorro dar à arara.
O homem sai da estação e a criança passa, entre as mãos da avó esperada e a mãe. O pai vai um pouco à frente. A criança quase pára, resiste à marcha, a avó puxa-o. O menino acena um adeus ao homem e à arara.
José Ribeiro Marto
