Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga
Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo,
Exmª Senhora Presidente da Junta da União de Freguesias de Urros e Peredo dos Castelhanos, Patrícia Sofia Teixeira Neto,
Caro Manuel Sengo,
Minhas senhoras e meus senhores.
Os sentidos de Manuel Sengo na sua obra Fogo dos Sentidos não se limita à catalogação clássica da perceção sensorial. O que vulgarmente conhecemos como cinco sentidos já pelo fogo vem intensificado e transformado.
Os poetas operam aquilo a que a ciência e a filosofia do nosso tempo chamam intercepção, a percepção do estado interno do corpo: os sentidos são fogo, eis o exemplo do título.
Além de perceberem o interior do corpo, os poetas recorrem a procedimentos como a sinestesia, que consiste em misturar as percepções. Como procede então Manuel Sengo? Ele mistura os cinco sentidos, de maneira que as cores ganham cheiro, os sons ganham textura e os silêncios ganham calor, como quando consegue, por exemplo, “ouvir uma cor” ou “tocar num som”.
Urros é uma aldeia do Portugal profundíssimo, encravada no coração da Terra Quente Transmontana. Aqui, a paisagem é feita de extremos, de giestas, amendoeiras e xisto. Neste interior cujo isolamento preserva tradições antigas, a sinestesia não é apenas uma figura de retórica; é a forma natural como as pessoas da terra sentem o mundo. No Portugal interior, o corpo inteiro lê a natureza: sabe-se que a geada “morde”, que o sol “pesa” nos ombros e que o silêncio da noite tem a densidade e o perfume da terra lavrada.
Manuel Sengo transporta para o papel essa sabedoria sensorial da eira, do tear e da mina, traduzindo a aspereza e a beleza do território numa linguagem na qual se fundem o pensamento e a matéria.
Nota-se nestes poemas uma insistente procura pela língua silenciosa da humanidade e pela arte de ouvir o invisível através da música, em que o som se identifica com o silêncio que o gerou. Os dedos tateiam a pele como quem estuda uma cartografia secreta, e o toque atinge um limite sensível que pensa. O próprio tempo é sentido na pele como maestro invisível que corre nas veias como seiva ou água subterrânea.
Esta abordagem poética alinha-se com as novas correntes da antropologia sensorial, segundo a qual os sentidos não atuam isolados, fundem-se para criar outras dimensões do pensamento. Assim, o corpo do poeta torna-se recetáculo para a geada, o sol ardente e o suor se misturarem com a água doce dos rios.
Neste território poético e geográfico, um nome surge todo-poderoso, o da terra natal de Manuel Sengo, esta onde nos encontramos. Longe de ser apenas um topónimo, a palavra «Urros», na realidade ou num poema como «Quente», carrega uma densidade ontológica que dialoga com grandes marcos da arte ocidental. Se na famosa tela de Edvard Munch o grito é a exteriorização da angústia existencial que distorce a natureza, em Manuel Sengo o urro da terra é telúrico, nasce das entranhas das minas do Reboredo, do bater da picareta, numa orquestra de suor e pedra cuja voz é a da própria matéria.
Se o poeta Allen Ginsberg viu o uivo de uma geração destruída pela loucura da modernidade urbana, Sengo encontra em Urros uma loucura no paraíso perdido, um confronto entre o silêncio petrificado e a guerra que grita no poder. O urro da sua terra é o clamor dos desprotegidos, aqueles que ficaram fora do mapa. Urros surge aqui como a porta estreita mencionada no poema «Destino». Porta estreita para um mundo largo, expressão que o poeta usa para descrever a sua partida rumo ao exame da quarta classe; porém, na tradição esotérica, mística e iniciática, a porta estreita representa a passagem, a iniciação, a transmutação espiritual.
Ao evocar a porta estreita num mundo largo, Manuel Sengo aproxima de nós os conhecidos versículos do Evangelho de São Mateus (7:13-14), mas liberta-os da sua intenção moral para os transmutar em processo iniciático. Na Bíblia, a porta estreita é o aviso sobre o caminho difícil que conduz à vida; no percurso do poeta, ela transforma-se na passagem para o mundo poético através do despojamento do ser. Para cruzar esse limiar na serra do Reboredo, o corpo enfrenta a clandestinidade da madrugada; nos riscos do caminho, opera-se uma alquimia espiritual mediante a qual a água lava o corpo e a alma, o pó profano cai e o caminhante é despido do passado para ser revestido com as roupas novas saídas de um saco de linho. É um rito de passagem.
Cruzar esta porta bíblica e telúrica exige a mudez e o silêncio absoluto perante os mestres do júri, operando a transmutação necessária para que, no regresso, o iniciado já não seja o mesmo, mas regresse a rir e a cantar sobre o pó do caminho, consagrando a vitória do conhecimento e mostrando que a geografia de Urros funciona como um mapa de geometrias antigas e passagens sagradas.
Termino com o poema «Quente», no qual Urros vem mencionado, para analisarmos dois pontos. Voltemos no primeiro à questão das sinestesias, a mistura das informações que nos transmitem os cinco sentidos: Manuel Sengo afasta-se da metáfora intelectual e dota a paisagem de reações físicas humanas, como em “Onde o sol beija os montes”, uma sinestesia tátil-visual instantânea. O calor do sol não é apenas visto; é sentido na pele através do arquétipo do beijo.
Nos versos “Flores brancas perfumadas radiantes / Exalam um aroma que embriaga os sentidos” a visão (o branco radiante) e o olfato (o perfume) fundem-se num efeito palatável/químico — a embriaguez. No caso de “Pirilampos fazem poesia com luz própria”, o autor transforma um fenómeno visual (a bioluminescência) numa arte textual e auditiva (a poesia). A luz passa a ler-se.
O segundo ponto que merece nota seria, metaforicamente falando, a Arca de Noé de Urros. De facto, um dos elementos mais curiosos do poema é a listagem rítmica e quase ritualística dos animais domésticos da região. Sengo escreve: “Com rebanhos de cabras, ovelhas e cordeiros / Manadas de bovinos, burros, machos e cavalos”. Esta enumeração não é um adereço pastoril; representa a abundância viva e o sustento das populações. O facto de incluir especificamente os “machos” (as mulas de carga, fundamentais no Trás-os-Montes antigo para vencer o relevo xistoso e as longas distâncias, como a viagem a Moncorvo relatada em «Destino») demonstra a sua exactidão de memória histórica e afetiva.
Em «Quente», o poema assume explicitamente o nome da aldeia e a sua matriz geográfica: “Urros terra quente / É um tesouro de campos, vinhas, hortas, prados e lameiros”. O uso de termos tradicionais como “lameiros” (os prados húmidos de montanha), “searas” e “rolheiros nas eiras” (os amontoados de cereais ou palha durante a debulha) ancora o livro na herança da civilização agrária.
Encerrada a prosa analítica, o momento é agora de apelo à conciliação e à eternização dessa identidade, através do “amor e simplicidade”.
QUENTE
Nas encostas onde o sol beija os montes
Os sobreiros sussurram segredos ao vento
Encontro de um lugar onde a natureza se mostra em fontes
O encanto dos olivais são um alento
Com sua folhagem verde esvoaçante
A seu lado os amendoais se erguem altivos e viçosos
Com suas flores brancas perfumadas radiantes
Exalam um aroma que embriaga os sentidos curiosos
No desabrochar de cada botão delicado
Brilham as pétalas em pura perfeição
É um espetáculo deslumbrante e afamado
Transformam a paisagem numa tela de admiração
Sob o céu azul e o sol brilhante
As andorinhas dançam no ar e trazem primavera
Convidam pássaros e abelhas ao baile da renovação
Numa cena de beleza singular e verdadeira
Quando chega a noite e o luar se acende
Pirilampos fazem poesia com luz própria
Encantando os olhares de quem a compreende
A magia presente nessa flora tão festejada e notória
Urros terra quente
É um tesouro de campos, vinhas, hortas, prados e lameiros
Que enchem os corações de alegria
Com rebanhos de cabras, ovelhas e cordeiros
Manadas de bovinos, burros, machos e cavalos
Em cada botão, em cada pétala, existem refrões divinos
Que nos mostram a natureza da sua gente em plena harmonia
Que essas qualidades eternizem a grandiosidade
Tem memória das searas e rolheiros nas eiras
Era uma riqueza que encantava com a sua formosura
Agora celebremos com amor e simplicidade
A exuberância da nossa flor que nos faz sentir tanta ternura
