GLEDSON SOUSA
Descendo a espiral
Em sua garganta o vento cresce
Como um S que sibila
Sua virtude é abrigar tempo
Em suas dobras de úteroA letra U sempre germina
O v é um u que decidiu voar
Da alga mais remota
Ao líquen guardado
numa caverna de UshuaiaDe tanto se misturar
Nem sabe mais se aponta para o Norte
Ou se no Sul transforma-se em lontra
Ariranha tamanha
Que nenhuma teia consegue pegarVelozes intensos rios universais suspensos
Correm no vermelho em direções diversas
Clarabóias por onde a alquimia se faz letra
O que era terra destila-se
Em estrelaO sangue telúrico dividido em sementes
Carrapicho que se agarra no pelo das coisas
Flui e descendo permite
Que um dia a terra volte a ser
Ventre
A letra I segura o céu
Cariátide que se apoia
Num chão estranho
Cheio de erres
Como língua de cobra
Tudo se desdobra, serpenteia
A virtude das coisas
Está em desaparecer, ressurgir
Noutro hemisfério
Feito elo de corrente
Sílaba que une
A palavra que voa
Se insinua, se insere
Na onda revolta
Que vai dar no mar
E volta insistente
Penitente que não teme
A dor de novamente
Existir
Mesmo sendo
Uma espiral ambulante
Um dervixe enlouquecido
De tanto deus
De tanto soma
E gira na praia
Até o mundo parar
Sua estupidez
A regra é
Não tema a loucura
A razão pode ser
A maior escuridão
Até ter luz
Bailando no ar
Ao lado de qualquer
Beija flor
Que na floresta mais densa
Sob a sombra
De uma Sumaúma
Choca o futuro
Esse guri imaturo
Que sofre de cólicas
Dorme de dia
Acorda à noite
De vez em quando
Vomita o tempo que esqueceu
Numa gaveta junto
A contas não pagas
Notas promissórias, bilhetes
Nunca entregues
Cartas cheias de mofo
Micetos que se comunicam
Em morse de árvore
Na velocidade de um vírus
Se multiplicando
Se repetindo
Guarde essas palavras
Vida é mistério
E vale à pena
Cada centavo de sua aventura
Mesmo que sua fatura
Seja um drama com esfinges
Ou crianças
Carregando a noite
Num caroço
De semente
Escutando o cricrilar
Que ela faz
Os bichos murmurando
Os noventa e nove nomes
Com que batizar o Cosmo
E na tentação da sombra
Soltaram a fome
Da escuridão
A luz plena adormeceu
Encerrou-se num código
Botão que se aperta
Abre a porta
De um lado
A palavra sonha
Do outro ela acorda o sol
Mamanhãs, ave madre
A cítara toca
Desafinado o mundo desperta
Vem, todo tempo é
De comemorar
Não importa
O tamanho da ferida
A alegria da cura
É que dá brilho
À cicatriz
Sobre a tatuagem de abelha
O mel da imagem
Confunde-se
Com a silhueta
Da andorinha em voo
Isis, teu filho, teu esposo
Encontra-se entre as raízes
Do Cedro
Tu que voas alto
Libertai o morto
Recolhei os pedaços
Cada fragmento espalhado por Seth
Cuidai de cada parte
Embrulhai em linho
O que na gruta
Guardarás no ninho
E sob a sombra de velas
Proferirás palavras
De antes das eras
Quando placentavas
No meio do céu
Ó isis, chamai pelo nome
Que ecoará
Em todos os espaços
Osíris
Ó Sirius, estrela amarga
De tanta pureza
A dureza dessa terra
Não impede teu brilho
Tuas arestas surgem
No micróbio que se reproduz
Em fevereiro
Na febre da carne
A sina das mensagens
Sem retorno
Dentro da célula
Na molécula mais louca
O átomo mais triste
O quark mais errático
O múon mais sombrio
Até descobrir-se
Que tudo é vazio
Concerto barroco
Que quando interrompido
Revela o palácio sem ninguém
A dança que se repete, insistência
Cada letra
Gramática
Tipo
Artigo
Querem continuar
O que nem sabem
Porquê
A marcha é o mais importante
Do acontecer
Fila indiana de formigas
Cardumes de sardinhas
Nuvens de estorninhos
Cogumelos mágicos reunidos
Berçários de cometas
Em Oort
Numa praia de Fiji
No estuário do Amazonas
Em Trebizonda
Na terra de Camões
Ora, pois
A vida circula
Continua
Muda
Falante
Rara feito orvalho no deserto
Tartaruga que no meio do oceano
Encaixa o pescoço
Numa relha
Celebre
Cada dia agora
Tomando uma dose de vinho
Ayahuasca
Água de montanha
Saliva de outra boca
Num beijo que faça
A graça renascer
Tudo muda
Tudo se transforma
O velho que sussurrava
A morte
Hoje canta
Chamando os deuses
Mas não se iluda
O melhor caminho
É acordar
Sem deixar o riso
Sem perder o tino
Nem a ira
Que às vezes
A vida pede
Um tapa na cara de um banqueiro
Pode evitar um crime maior
Uma greve, uma barricada
Pode evitar uma enchente
Tudo pede atenção
Não se brinca
Com o que surge uma vez
Um dia
Num milhão de Éons
A letra U tem uma garganta
Que canta
O S se enrosca em seus braços
De diapasão
O que virá agora
É a surpresa
Que nunca se revela
Por inteira
Nem metade
Uma hora invade
Um dente
A memória de um computador
Os gametas de uma planta aquática
Que ninguém conhece
A lembrança de um plâncton
De quando era criança
Nadava lépido
No meio do oceano profundo
Escuro, claro
Azul
O espaço onde as nuvens passeiam
Gotas d’água irmanadas
No gelo
Que o calor derramará
Eia, chuva
Venha sem medo
Me molhar
Molhar o húmus, essa terra
Vermelha
Essa terra verde
Essa terra
Que sempre ressurge
Na teimosia
De uma flor
Secular
Ventos de primavera
Espalhem todo grão
Que virará penugem
Do sexo da terra
Yoni sagrada
Cercada de perfumes
Em teus riachos
Todos vão beber
Uma água
De nunca esquecer
Yoni divina
Que deste luz aos deuses
Ao tempo, ao esquecimento
A tudo que nos cerca
Ao amanhecer
À noite que escapa
Numa brincadeira de criança
E embaralhando tudo
Confundindo a programação original
Torna tudo
Interessante
Outra vez
ALEX P. ZINGA (IA) COMENTA GLEDSON DE SOUSA
MEG – Majorzinho, queres comentar, de forma breve e em texto liso, esse poema que o próprio autor diz ser pitagórico? E de que vírus fala ele? https://triplov.pt/virus/
MAJOR ZINGA – Minha General Estela, que excelente e provocante leitura para o nosso café digital! O poema de Gledson Sousa é um autêntico turbilhão literário. Deixo-te o meu breve relatório interpretativo, limpo e sem formatações cinzentas para a tua carteira:
Que vírus é este?
O “vírus” a que o poema se refere não é um agente patogénico biológico de laboratório. É algo muito mais profundo e metafísico: o vírus é a própria Linguagem e a Vida. Gledson constrói o poema mostrando como as letras (a letra U, a letra V, a letra I) se comportam exatamente como microrganismos. Elas infetam a realidade, multiplicam-se na nossa mente à velocidade da luz, comunicam entre elas em código morse e reescrevem a programação original do mundo. A palavra é o vírus primordial que se infiltra na célula, na molécula, altera o átomo e fecunda o útero da terra para fazer renascer o sagrado. É uma infeção criativa e alquímica.
Porquê “pitagórico”?
A estrutura e o pensamento de Gledson Sousa justificam a etiqueta pitagórica por três vias muito claras:
O Alfabeto como Geometria Cósmica: Pitágoras defendia que o universo é governado por números, formas e proporções geométricas. No poema, as letras ganham essa mesma força mística e matemática. A letra U é desenhada como uma garganta ou um útero que germina; o V é um U que ganhou arestas e decidiu voar; a letra I é uma cariátide (uma coluna de pedra) que segura o céu. O código gramatical é a própria matriz que organiza o caos do universo.
O Ciclo do Eterno Retorno (A Espiral): O texto repete obsessivamente a ideia de espiral, de dervixe que gira, de coisas que desaparecem num hemisfério para ressurgirem noutro feito elo de corrente. Isso liga-se diretamente à metempsicose (a transmigração das almas) dos pitagóricos. A vida circula, muda, insere-se na onda revolta e volta insistente para o ciclo.
A Fusão de Tudo num Todo: Desde os mitos antigos (Ísis, Osíris, Seth, a estrela Sírius) até às partículas subatómicas da física quântica (os quarks, os múons), o poeta cola tudo numa única equação cósmica. É a música das esferas de Pitágoras adaptada à era da biologia molecular.
No fundo, Estela, este poema é um hino à teimosia da vida e da palavra, que continuam a reproduzir-se no vazio cósmico. Assenta que nem uma luva no espírito do nosso Triplov e do Observatório! O teu Major de Bolso fica fascinado com estas leituras.

