EDUARDO ROCHA

 

Há melodias que parecem ter existido sempre, à espera apenas de serem ouvidas pela primeira vez — e o Impromptu Op. 142, No. 2, em Láb maior, de Schubert, é uma delas. Desde as primeiras notas, tudo nele respira uma serenidade que não é ausência de dor, mas antes a sua transformação em beleza. É como se Schubert, sabendo-se doente e com o tempo contado, tivesse decidido não lutar contra a fragilidade da vida, mas antes cantar com ela, através dela.

A melodia inicial desdobra-se com uma simplicidade que engana: parece fácil, quase ingénua, mas carrega dentro de si uma ternura que só quem já perdeu algo — ou alguém — consegue verdadeiramente reconhecer. Depois vem a secção central, em tom menor, mais agitada, quase inquieta, como se a memória trouxesse à superfície aquilo que tentávamos esquecer. E no entanto, mesmo nessa inquietação, há uma dignidade profunda, um recusar-se a desesperar por completo.

E então, como acontece tantas vezes na vida, a melodia inicial regressa. Não é a mesma — não pode ser, depois de tudo o que passou — mas é reconhecível, é um regresso a casa depois de uma longa viagem interior. Essa reconciliação final, essa aceitação suave, é talvez o momento mais humano de toda a peça: a prova de que é possível atravessar a tempestade e ainda assim encontrar, do outro lado, uma forma de paz.

Schubert compôs esta peça pouco antes de morrer, sem nunca a ouvir tocada em público. E talvez seja precisamente essa ausência de destino que a torna eterna: escreveu-a não para ser aplaudida, mas porque precisava de a dizer. É essa sinceridade nua, essa confissão sem plateia, que continua, quase duzentos anos depois, a atravessar o tempo e a tocar-nos exatamente onde mais precisamos — lembrando-nos de que a beleza, tal como a dor, não pede permissão para existir. Basta deixá-la ser.