PAULO JORGE BRITO E ABREU
«Sou mais Eu quando Tu és a síntese de Nós.»
João Belo
( dedico o meu labor à Paz planetária )
( e dedico este Ensaio, de feito, a Figueres, a terra natal de Salvador Dalí )
I, LIMIAR
A tese e a estesia, autêntica Poesia à mesa da Palavra. E vida, comovida, no Verbo e alimento, eis o «topos» e tipo da Palingenesia. O cenáculo, o banquete. A adiafa e o prândio. À mesa do simpósio, o Pão é qual Palavra e a Palavra é qual o Pão, e sejamos, nós outros, os Companheiros de Emaús. Pois profere, María Ángeles ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ), a sua profecia, e professa, a angélica, o professorado. Ou melhor: ela derrama bem o «Logos» nas nossas entranhas. Que o provérbio é provecto, e é provado o provençal, provada, a profecia, através da provação. Ángeles é, por isso, pedagoga, ela guia os jovens a caminho da escola. Ou Ángeles é o Anjo que vive o Evangelho, e que traz, nubente, a Boa Nova. Para mensageiros humanos e divinos, «anjo» é tradução do grego «aggelos» e do hebraico «mal’ak», sendo o «angelus», do Latim, «mensageiro divino». Sendo o anjo, afinal, um ser medianeiro entre os homens, dessarte, e o mundo divinal. Pois é o «aggelos», na cultura pagã, um ente plasmado por o génio de Mercúrio. Sendo, para os helenos, «euaggelion», ou «euaggelos», em lusitano «Evangelho», o portar, no tento, a Boa Notícia. Dizer isto é aduzir: em María Ángeles Pérez López ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ), o que é mister, aqui, é o som, o mistério da Palavra é ministério menestrel. De tal modo que aduziremos: quando um Poeta dorme, ou quando um Poeta sonha, os Anjos sobem e descem por a escada de Jacob ( Gn 28 ). E, se «nomina numina», a tese é a estese, a Poesia de Pérez López é o nome, é o Nume e é o lume. Que as palavras são signos, os livros, para ela, são signas e sinais de civilização. Que a parábola é de Unamuno (Bilbau, 29/ 09/ 1864 – Salamanca, 31/ 12/ 1936), porque, logo após o pão, é pois, a cultura, a premência primeira do filho do homem. Quer dizer: nascida e nada em Valladolid, professa, a Autora de «Jardin ( e )s Excedidos», Literatura Hispano-Americana na Universidade de Salamanca. Que em Salamanca, no acalanto, se ilumina, se afugenta a escuridade com golpes de Luz santa. Aqui é, como diria Sampaio Bruno (Porto, 30/ 11/ 1857 – Porto, 11/ 11/ 1915), a santa cruzada da Luz contra as trevas. Ou melhor: o trabalho da leitura, da muita leitura, levou, María Ángeles, à escola e à escritura. E como na geração da «Presença» lusitana ( 1927 – 1940 ), a Letradura, em Ángeles, não é só livresca, se trata, aqui, da Literatura viva. Letradura diva, premente e activa. E firme fundamento do frumento extraordinário, eis a lavra e eis a leiva, eis o «Logos» e lei da lucubração. Se apreendemos, nós outros, o «prazer da leitura», se as Letras, aqui, são Ciências da Vida, estudar um Autor é de oração e comunhão, é Querigma, ou questão, de vida ou de morte. E não será, esta Poesia, a barca e o berço da universalidade? Não será que, comunicando, atingimos, aqui, uma preste comunhão??? Tal é o símbolo e o simpósio, e em poema número 10, escutemos, então, a Poetisa, é dela, dessarte, a voz e a vez: «Para o negro sudário do benzeno / que agarra as gaivotas e as lança / contra a areia triste, rarefeita / do tempo e esforço alcatroados, / a mulher eleva-se nos pés / e solta o coração como uma rola.» Quer dizer: se ecologia, aqui, é qual «école», eis no carme, em Pérez López, o estado metafísico duma Ontologia, e pois a seiva, e a leiva, dos jardins jornadeados. Dito doutro modo: se o prândio é Palavra, e se o Ágape é agora, os «Jardin (e)s Excedidos» ( Fevereiro de 2018 ) são qual a frol, e a fronde, da celeste Agricultura. Ou melhor: na Lira de López há ligação, indissolubilidade, entre significante e significado, entre sujeito e objecto do conhecimento. E o que é que anela, o que é que busca esta Poesia??? Miguel de Unamuno ( Bilbau, 29/ 09/ 1864 – Salamanca, 31/ 12/ 1936 ), novamente, nos dá a resposta: «Nada menos que todo um homem», um homem, caroal, e da cabeça até aos pés. «Procuro apenas um homem!!!», assertava, decerto, Diógenes o Cínico ( Sinope, 400 – Corinto, 323 a. C. ), percorrendo, com uma lanterna, durante o dia, as ruas de Atenas. Uma nótula, aqui, de História das Ideias: com Unamuno, de boamente, e António Machado ( Sevilha, 26/ 07/ 1875 – Collioure, 22/ 02/ 1939 ), o Existencialismo adquire, em Espanha, os foros, florais, de cidadania. Mas revertendo, na jornada, a María Ángeles (Valladolid, 22/ 06/ 1967): se autoridade, aqui, é do Autor, este livro é do holismo, e não e nanja Véu de Maya. É que «indivíduo», em Pérez López (Valladolid, 22/ 06/ 1967), é aquele, ou aquela, que não se divide. E, sendo assim, se anela, em Salamanca, a ciência da cultura, o tópico e típico da universalidade. Que é o mundo da canção e a mundificação, que é música, o Museu e o Templo das Musas. Dizer isto é matutar que «A mulher leva um pássaro na boca. / Atalhou o suor, o lanho, / a perseguição e as penas revoltosas. / Com enorme cuidado deposita / o pássaro – esse menino – sobre o chão / e espera sem falar a sua recompensa. / Não há piedade nem sequer adrenalina, / e nos seus sonhos não dói a cor vermelha.» E eis aqui o «trobar clus», eis, no Desperto, o hermético, oculto e Encoberto; nessa jorna maioral, eis a maga magistral, a máscara, malabar, diante da cara. E pra citarmos um lema de Sebastião da Gama ( Vila Nogueira de Azeitão, 10/ 04/ 1924 – Lisboa, 07/ 02/ 1952 ), o tema é poema, «Pelo sonho é que vamos» ( 1953 ), e é a «Pedra Filosofal» de António Gedeão (Lisboa, 24/ 11/ 1906 – Lisboa, 19/ 02/ 1997). Ou, na esperta Hespanha, «A Vida é Sonho», deveras, em Calderón de la Barca ( Madrid, 17/ 01/ 1600 – Madrid, 25/ 05/ 1681 ). Ou como diria Schopenhauer (Gdansk, 22/ 02/ 1788 – Frankfurt, 21/ 09/ 1860), a vida e os sonhos são laudas e folhas de um mesmo, dessarte, e único livro. Ouçamos, n’«A Tempestade», ouçamos, «verbi gratia», William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, 23/ 04/ 1564 – Stratford-upon-Avon, 23/ 04/ 1616 ), o beletrista, ou o bardo, da loura Albion: «Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, e a nossa curta vida está cercada por um sono.» E proferimos, então: com toda a justeza, e com toda a justiça, María Ángeles morre, todalas noutes, para voltar a nascer no dia seguinte. Que o «songe» é «mensonge», o sonho é mentira que alimentada e alentada, se transmuda, deveras, na verdade promissora. Ou melhor: imaginar, na feeria, é como fazer. Mas mais do que mentir, para Fernando José da Costa Grade ( Estoril, 01/ 04/ 1943 – Nova Oeiras, 08/ 06/ 2024 ), os Poetas falam, de feito, de outra cousa deveras, eles praticam, na práxis, a alegoria. E por isso uma asserção: numa «Alêtheia» de Alumbrado nós inferimos, exigimos, uma hermética hermenêutica da Poeta Pérez López (Valladolid, 22/ 06/ 1967) – e seja o Pão e a Palavra, e seja Música o frumento e o preste Firmamento. Se, num certo sentido, o Artista é aquele que sonha acordado, a Poetisa transporta, para a vida vígil, o entusiasmo e a magia que são próprios da Noite: essa a colação e a sua lição. E não leixemos, aqui, no oblívio, «A Interpretação dos Sonhos» (04/ 11/ 1899), do solerte Sigmund Freud ( Freiberg in Mahren, Morávia, 06/ 05/ 1856 – Londres, 23/ 09/ 1939 ) – e eis no carme, e no canto, o sonho do século. E sejamos, «verbi gratia», supra-realista: é chegada alfim a hora dos filósofos dormentes. Se o irónico, portanto, é onírico, os Antigos acreditavam que o sonho é comunicação entre os deuses e os homens. E claro e preclaro, nos já o dissemos: quando um Poeta dorme, ou quando um Poeta sonha, os Anjos sobem e descem pela escada de Jacob ( Gn 28: 10, 19 ) – e não alembras, aqui, a «Noite Escura» e pura, do São João da Cruz ( Fontiveros, Espanha, 24/ 06/ 1542 – Úbeda, Espanha, 14/ 12/ 1591 )??? O São João da Cruz que, no astro e no estro, averbaremos adiante. Que a letradura, pra Pérez López (Valladolid, 22/ 06/ 1967), é premente alegoria, é uma forma de se outrar. Ela é, altruísta, é quando vai o Eu a caminho do Outro. Sendo o Outro o alter-Ego, sendo o Outro o liberal no poético banquete. Literatura é, sem alcalóides nem drogas, um meio para o desenvolvimento do potencial humano. Ou em escólio breve e leve: é, no jardim, augusta lavra. E é, este livro, o caro e caroal, o coração do mundo.
II, ESTÉTICA NAÇÃO, POÉTICA MANSÃO
A propósito, então, de María Ángeles Pérez López ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ): se a biblioteca é um vergel, a criação é a casa do Verbo criador, com palavras faz, Pérez López, a sua habitação. Seguindo e segundo o Heidegger, agora, ( Messkirch, 26/ 09/ 1889 – Freiburg, 26/ 05/ 1976 ), os Poetas e Filósofos são os guardas, guardiães, dessa habitação. Vem a propósito, aqui, uma cita, magistral, de Jorge Luis Borges ( Buenos Aires, 24/ 08/ 1899 – Genebra, 14/ 06/ 1986 ), argentino de gema e, portanto, da América espanhola: «Sempre imaginei o Paraíso como uma espécie de biblioteca.» Aduzia, dessarte, o valente Voltaire (Paris, 21/ 11/ 1694 – Paris, 30/ 05/ 1778), no fim do seu «Cândido» ( 1759 ): «Eu também sei que é preciso cultivar o nosso jardim», é que a terra só existe pra ser lavrada, lembrada, cultivada pelo homem. Quanto ao nosso tema, o digamos, aqui, a talho de foice: este livro bilingue só foi possível, e plausível, com o engenho, a generosidade, do Poeta e Arqueólogo Carlos d’Abreu (Maçores, 15/ 09/ 1961), que laborou a tradução do espanhol para o lusitano. Como ela professa, e confessa, «Sou uma menina e pinto a cores / o tronco sepulcral dos desenhos» (…) «Quero ser uma menina e voltar até ao ventre / da água e seu silêncio do início, / o fluxo do sangue que me leva / e faz infância este tempo insuportável, / mas vejo o mar como a soma / de capas de alumínio e de desejo, / o peso na cabeça de metal, / a entranha solitária e inquisitiva / atenta a esse rumor que não se sente.» Que o ventre da água são, aqui, as águas da matriz. Como em Tales de Mileto ( Mileto, c. 624 a. C. – Mileto, c. 546 a. C. ), a água que é o mar, a água que é a Madre de todalas cousas. Que a Poesia, na angélica, ela é, dessarte, regresso à infância. E sendo a criança, para William Wordsworth (Cockermouth, 07/ 04/ 1770 – Rydal Mount and Gardens, 23/ 04/ 1850), o antepassado do homem. E sinalando, esta Poesia, a monda, e o mundo, mágico-simbólico, esse o coração e portanto a unção. Quero eu dizer: essa a mansão com as portas sempre abertas à juventa, lilial, e aos ventos siderais. Voltamos, decerto, a assertá-lo: enquanto, na tecnocracia, o sujeito manda, manipula, e se serve do objecto, o que há, nas ciências humanas, é sinergia, simbiose ou simpatia, entre o sujeito e objecto do conhecimento. Ora eis, no carme, o «rapport», o trovar e o «transfert», a «participação mística» do Carl Gustav Jung (Kesswil, Suíça, 26/ 07/ 1875 – Kusnacht, Suíça, 06/ 06/ 1961). Em Platão (Atenas, 428 / 427 – Atenas, 348/ 347 a. C. ) como em nós, se torna similar, aquele que ama, ao divo e objecto da contemplação. E eis, aqui, o magno e «Mahatma», a natura do símbolo. Nunca é de mais citar Camões ( Lisboa? c. 1524 – Lisboa, 10/ 06/ 1580 ): «Transforma-se o amador na cousa amada / Por virtude do muito imaginar.» Intertextualidade, aqui, com Petrarca (Arezzo, Itália, 20/ 07/ 1304 – Arquà Petrarca, 19/ 07/ 1374): «L’amante nel amato si transforma». E germinal que nós somos, ouçamos o Génesis, 2: 24: «E os dois serão uma só carne.» Quer dizer a Torah: no convénio-casal, 1 + 1 = 1. Que o vitalismo é animismo. Se as belas-letras, aqui, são ciências da vida, o segredo das biografias é pois o seguinte: é que aprender, em parte, é imitar, é que a vida imita a Arte e a Arte imita a vida, sendo pois, a obra de Arte, a fantasia ou feeria, o mundo imaginal. Sendo pois, a «mimesis», medicação, o Mito e a Magia postos em acção. Ler os Evangelhos, por exemplo, é ser movido por metáforas, é ser contemporâneo de Cristo Jesus. Que a 10 de Julho de 1814, emocionado e comovido, escreveu, Victor Hugo (Besançon, 26/ 02/ 1802 – Paris, 22/ 05/ 1885), no seu diário: «Je veux être Chateaubriand ou rien», «Eu quero ser Chateaubriand, ou nada serei». E a aprendizagem foi lauta, também aqui, o discípulo, o Mestre ultrapassou. E sendo, María Ángelez, magíster e modelo, a Madre, acareada, dos seus alunos mais dilectos. E sendo, acalentado, o coração do ledor, e sendo, o aluno, o álacre e almo, o preste alimentado. É que a Poesia é o Pão da Vida, o educar, deveras, é dar a manducar. Ou sendo, o Bom Pastor, o norte, e bom modelo, do Mestre ou Professor. Dizer isto é alembrar: nos casos e nas causas mais adiantados, repete-se, no discípulo, a biografia do magíster. E alçamos, no ensino, toda a lis e todo o lais, o alvo e alvacento dos Estudos Gerais. E quem doutrina, ou quem ensina, ele fá-lo através dos signos linguísticos, aos signos linguísticos apõe o seu sinal. Dizer isto é remembrar: por cifras, por safras e esferas, a angélica defende, em santo-e-senha, a liga e a língua no coração de Hespanha. Metáfora, ou Metafísica, desse mesmo coração, Ángeles, portanto, é promotora e criadora, colabora pois com Deus no projecto criacionista ( 1 Cor 3: 9 ). E quem cria cria sempre à sua imagem, semelhança, e deveras confiança. Ora isso é querer e crer deveras, é criar e é crescer com a força da crença. Se aprender, então, é com-preender, afiança, Pérez López, forte e fértil: «Aprendizagem lenta e insubornável. / Não há quem dê mais por menos, / nem maneira / de assumir esta flor que fere a água.» Sabendo que o título desta quadra é «Conheço a minha culpa», está então desvendada a chave do enigma: angélica e no gene, é López liberal e a livre-pensadora – e lavorando em lavaredas, é leal o «Liber Mundi», e são os livros, entanto, que a fazem libertária. Um pouco mais de Sol, um pouco mais de Azul… Uma Rosa vermelha para o grão Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, 05/ 06/ 1898 – Alcafar, 19/ 08/1936)!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
III, NO CAMINHO DA LUZ
Aprisionaram Camões ( Lisboa? c. 1524 – Lisboa, 10/ 06/ 1580 ), aprisionaram Cervantes, (Alcalá de Henares, 29/ 09/ 1547 – Madrid, 22/ 04/ 1616), aprisionaram Bocage ( Setúbal, 15/ 09/ 1765 – Lisboa, 21/ 12/ 1805 ). E, também, o grande Mahatma Gandhi ( Porbandar, Índia, 02/ 10/ 1869 – Gandhi Smriti, Nova Delhi, Índia, 30/ 01/ 1948 ). E, outrossim, o verídico e a freima, o Verlaine figadal ( Metz, 30/ 03/ 1844 – Paris, 08/ 01/ 1896 ). E o feitor, e Actor, Camilo Castelo Branco ( Lisboa, 16/ 03/ 1825 – S. Miguel de Ceide, 01/ 06/ 1890 ). E alembremos, levemente, Bertrand Russell, o revel, sua Obra reverbera nas Ciências Humanas. Foi nado, Russell, em Trellech, País de Gales, a 18 de Maio de 1872, e faleceu em Penrhyndeudraeth, em sua casa, aos 2 de Fevereiro de 1970. Prémio Nobel da Literatura em 10 de Novembro de 1950, matemático, activista e filósofo deveras, ele foi manietado por ser Pacifista. É que a fome da Luz é fome de Pão. O Génio se paga, de feito, muito caro. E a quem muito foi dado, muito, também, lhe será exigido ( Lc 12: 48 ). «Ad augusta per angusta», «a resultados sublimes por veredas estreitas». Ou, então, «ad astra per aspera», «por caminhos ásperos até às estrelas». Que a privação é provação, que o Inferno, ou soterrâneo, é raiz, e é matriz, de toda a criação: quanto mais fundo mergulharem as raízes da árvore, mais se alçam, seus ramos, aos páramos do Céu. Mas é como dizia, no lance, Ralph Waldo Emerson ( Boston, Massachusetts, 25/ 05/ 1803 – Concord, Massachusetts, 27/ 04/ 1882 ), o estado-unidense: «Aqueles que distribuem o pão da vida são, quase sempre, recompensados com pedradas.» María Ángeles, por isso, uma alumbrada, e ressumbra, muita Luz, esta Poesia. Cotejemos, no estro, com Arthur Schopenhauer (Gdansk, Polónia, 22/ 02/ 1788 – Frankfurt, Alemanha, 21/ 09/ 1860): «Um génio, pelo simples facto de existir, trabalha para toda a humanidade.» María Ángeles, por isso, qual o Nume e luminária, um soldado, liberal, no Exército do Verbo. Nesse Exército, porém, não se luta com as armas, labora-se, isso sim, com as dinâmicas almas. O verso camoniano «Se a tanto me ajudar o engenho e Arte» ( in «Os Lusíadas», Canto I, estrofe 2, v. 8 ), selectamente significa: se o engenho, ou o gene, é inato e é natal, a Arte se atinge com esforço, com estudo, e com muita disciplina, pois pra citar, solerte, o Somerset Maugham ( Paris, 25/ 01/ 1874 – Nice, 16/ 12/ 1965 ), é crucial o acrobata, a Arte é um combate em «O Fio da Navalha» ( 1944 ): e eis o estado, e o estudo, da especulação. O caso é relevante. Relevante e aflante. Aduzimos, deveras, na língua do Lácio: «Nascuntur poetae, fiunt oratores», quer dizer: «Nascem os Poetas, mas fazem-se oradores». Em escólio breve e leve, e no edule do grado Edison ( Milan, Ohio, 11/ 02/ 1847 – West Orange, New Jersey, 18/ 10/ 1931 ), há, por um lado, inspiração – mas há, por o outro, muita transpiração. Há «schola», que é lazer, mas também há «tripalium». E há também, a par disso, o entusiasmo, o «élan», uma lídima paixão, só com as paixões se fazem, decerto, as grandes obras. Elas são passividade, mas elas inflam, de feito, as velas do navio. E eis, aqui, a pacifista e a premente: «Lançar contra a luz todos os peixes / e evitar que as redes os apanhem, / que os morda o anzol com a sua boca / curvada na violência de morrer. / Desatar a asfixia, travessão, / baforada de anidrido e espinhas / em que se fundem a angústia e os tacões / quando na quinta-feira se fecha, acalorado, / sobre a sua própria lista de impossíveis.» Tal como Píndaro ( Cinoscéfalos, Beócia, c. 518 a. C. – Argos, Peloponeso, c. 438 a. C. ), o grego, anela, Pérez López (Valladolid, 22/ 06/ 1967), ampliar e alargar os limites do possível, essa, portanto, a sua paixão. Alargada, de feito, com a sua Poesia, a paixão e o Sol do professorado. Dizer isto é relevar, e portanto razoar: Poesia, para López, não é «hobby», passatempo ou tampouco entretém, Poesia, nela, é missão, é questão, isso sim, de vida ou de morte, Poesia, nela, é sacerdócio perene. Como aduzem, dessarte, alquimistas (e a Poesia, para Rimbaud ( Charleville, 20/ 10/ 1854 – Marselha, 10/ 11/ 1891), é Alquimia do Verbo ), a Grande Obra é da esfera do êxtase e sagrado, ela exige, de facto, o pronto sacrifício. O sacrifício, o sacerdócio, o sacramental. E na génese é Ángeles aquela que gera, e eis que joga, a jogralesa, com as palavras e os sons: a Grande Obra, uterina, ela é trabalho de mulher e brincadeira de criança, sendo a Ludoterapia ela é Logoterapia. A tertúlia, por isso mesmo, o três vezes Túlio, o Marco Túlio Cícero ( Arpino, Itália, 03/ 01/ 106 a. C. – Fórmias, 07/ 12/ 43 a. C. ), terapia que fala do espiritual; e não será, a sala de aula, o almo, o altar, e o solene Psicodrama??? Louvemos, aqui, um engenheiro das Almas, o Jacob Levy Moreno (Bucareste, Roménia, 18/ 05/ 1889 – Beacon, Nova Iorque, 14/ 05/ 1974), e alcemos, na Autora, o trovar, a «Theoria», o Teatro do Ser. Sendo aqui, o heleno «Theoria», similar, o sinónimo, da «contemplação». É, na sorte, o conhecimento especulativo, é espectáculo desinteressado e por isso especular – e falamos, aqui, do estupendo e assombro, dos «Jardin ( e )s Excedidos» ( Fevereiro de 2018 ). Ou melhor: excedidos, ultrapassados, na estupefacção. E cedidos, desta sorte, à península de Hespanha, aos homens e mulheres da Grande Recusa, aos entes, liliais, da boa vontade. Queremos dizer: se refusa, María Ángeles ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ), acima de tudo, a ser subjugada, a ser hipnotizada, a ser massificada por os vorazes «mass media». As imagens desse «media» não são benevolentes, são falazes, na falácia, e estupefacientes. Ou como quem asserta, disserta e acerta: se «indivíduo», ao contrário do esquizofrénico, é aquele que não se divide, a multidão só existe para ser manipulada, e eis o turbar, e a traição, da humana condição. Em Cabala fonética o trovar, afinal, é como o estorvar, da «pólis» a polícia é política, outrossim, e por isso a polidez, e por isso a cidade é civilização. Afiança pois a López a Lira e a leva, aformoseia, frisante, o portugalaico. Meditemos, por isso, manduquemos, na monda, seu mundo imaginal: «A mulher é um belo, implacável animal / que pinta com neve o coração./ Um ursinho que hiberna longamente / mas pare as suas crias no frio, / um animal feroz, superado / pela sua própria paixão, temperatura / que derrete a geada e os desaires.» E mais à frente, no mesmo poema: «Então recolhe neve e aquece / o coração branquíssimo e ardendo / na sua gélida gruta silenciosa.» Retenhamos, na flama, a flux e a freima: «um animal feroz, superado / pela sua própria paixão, temperatura / que derrete a geada e os desaires.» Quer ela dizer: só a quente fraternidade entre os homens porá termo, cabalmente, ao dislate, alfim, ao desvairo e ao desaire. Pois dizer ela quer: misericórdia, aqui, é caro e coração para o mísero, miserável, prò deveras imparável. E o patético anela, o patético requer, acima de tudo, a nossa compaixão. Ou como em Carl Rogers ( Oak Park, Illinois, 08/ 01/ 1902 – La Jolla, Califórnia, 04/ 02/ 1987 ), qual enfática, empática, compreensão.
IV, O CAMINHO DA SAGRAÇÃO
Temos visto e hemos dito: à mesa da Palavra, bem-vindos sejam pois os fanais e comensais. Poesia, portanto, é simpósio, Poesia, no lance, é qual Teofania. E neste lai, ou neste lance, não nos olvidemos: Poetas como María Ángeles Pérez López ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ) são qual a prova, probante, da existência de Deus. Ouçamos, então, seu trovar, ouçamos, dessarte, a raiz e a matriz: «A vertigem, a elipse do poema / arranca uma luz rota de si mesmo / e comparece absurdo, imprescindível / quando o beijo se torna insuficiente / e vem o coração com a sua tormenta / trazer as alimárias da noite / que arrancam e devoram as oliveiras, / o carmim em que reside o nosso fogo, / aquele como o da torre de temão.» Dança-leme, dança leal, à beira de um vulcão. Com esta Poesia somos prestes a dizer: mais do que pensar nós somos plasmados, pesados e pensados por o nosso inconsciente. Em rigorosa, viçosa, e funda acribia, não é María Ángeles ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ) quem faz os poemas, os poemas, no carme, é que fazem seu Fado. E é que são, seus lemas e emblemas, são fruto e a frol do subconsciente. São, alfim, o múnus e Nume, os campos magnéticos da munificente. Nesta Autora se repete o lance, a galeota, do feraz Garcia Lorca ( Fuente Vaqueros, 05/ 06/ 1898 – Alcafar, 19/ 08/ 1936 ): quanto mais popular, tanto mais nacional, quanto mais subjectivo, tanto mais universal. E ora vamos nós avante, e ora vamos forte em frente. Em termos, novamente, camonianos, da particular beleza Ángeles passa, genesicamente, para a Beleza geral. Ou melhor: do seu inconsciente, meramente pessoal, ela passa, presta e pronta, para o lectivo, colectivo inconsciente. Ou melhor: em Pérez López nós lidamos com protótipos, com tipos, com a logia, sideral, dos arquétipos arcanos. Em Demanda, todo este livro, duma santa trilogia, da Bondade, da Beleza e da Verdade. Ou em termos, caroais, do solerte Auguste Comte ( Montpellier, 19/ 01/ 1798 – Paris, 05/ 09/ 1857 ): «O amor como princípio, a ordem como base, o progresso como fim.» E se o Belo, por isso, provoca prazer, a Poesia é qual o sonho, a Poesia é qual o tipo do fantástico «homo ludens». E da «schola», lilial, em sentido etimológico. É o jogo e a jogralesa, a jucunda e uma certa jocosidade. E se o verso é pois in-verso ( é o Verbo do arado em terra fértil e fecunda ), entendemos, então, que o irónico é onírico, e que é, o provençal, uma certa saturnal. E se o Sol, pra Teixeira de Pascoaes ( Gatão, Amarante, 02/ 11/ 1877 – Gatão, Amarante, 14/ 12/ 1952 ), e se «o Sol é o esplendor da vulgaridade», a Poesia, dessarte, vai contra o patrão, a Poesia é deveras o mundo às avessas, e o verso é inverso na mundificação. E pra citarmos um título de Fernando Botto Semedo ( Lisboa, 18/ 06/ 1955 ), o «Carnaval de Espelhos» é, de feito, o «carrus navalis», ele é, decerto, a versão e subversão. E arquivamos, aqui, bem a talho de foice, «Selenographia in Cynthia» ( 2003 ), por Jorge Telles de Menezes, «Lua Cisterna» ( 1984 ), por Alexandre Vargas e, finalmente, os «Hinos à Noite» ( 1800 ), por o Novalis nitente ( Wiederstedt, Harz, 02/ 05/ 1772 – Weissenfels, 25/ 03/ 1801 ). É a paixão, de feito, como oposta à razão, e é por isso o estar no contra. E por isso grafou, William Blake ( Soho, Londres, 28/ 11/ 1757 – Londres, 12/ 08/ 1827 ), que os Poetas tomam, revéis, o partido dos demónios. E por isso escreveu, Rabelais ( Seuilly, 1483 / 1494 – Paris, 09/ 04/ 1553 ), o «faz o que tu quiseres»: eis o lema, e emblema, da Abadia de Thélème. Parafraseia, no canho, o culto Aleister Crowley (Leamington Spa, Reino Unido, 12/ 10/ 1875 – Hastings, Reino Unido, 01/ 12/ 1947): «Faz o que quiseres, há-de ser tudo da Lei.» Mas corrige, decerto, o Santo Agostinho ( Tagaste, 13/ 11/ 354 – Hipona, 28/ 08/ 430 ): «Ama e faz o que quiseres.» E sejamos, por isso, franco na franquia: só com o «ama e faz o que quiseres» se alcança, no lance, a autonomia da lei moral. E uma nótula, aqui, de História Literária: o Escritor Paulo Coelho ( Rio de Janeiro, 24/ 08/ 1947 ), do Brasil, ele foi, na juventa, discípulo, confesso, do Autor Aleister Crowley. E por isso a nossa Actriz é singular e luminar, é curial e crucial na amada Finisterra. E onde a terra se acaba, começa o amar. Alicerçado, então, em María Ángeles Pérez López (Valladolid, 22/ 06/ 1967), em Miguel de Unamuno (Bilbau, 29/ 09/ 1864 – Salamanca, 31/ 12/ 1936), e em María Zambrano ( Vélez-Málaga, 22/ 04/ 1904 – Madrid, 06/ 02/ 1991 ), amparado e escorado, na vez, em Olvido García Valdés (Pravia, Asturias, 02/ 12/ 1950), o que eu pretendo, com este livro, é intercâmbio cultural, é uma ínsula plantar no coração de Hespanha. Mas o meu destinatário ele é, outrossim, a universalidade, quero eu dizer, a Universidade salamanquina. Ela tem, deveras, ela tem que se lhe diga. Fundada em 1218, por o Rei Afonso IX, de Leão ( 1188 – 1230 ), é a instituição de ensino superior mais avita de Hespanha; e é a quarta fundada na Europa, posterior somente às Universidades de Bolonha, e de Oxford e Paris. Actualmente com mais de 35. 000 alunos, a abrilhantaram os Portugueses Pedro Nunes ( Alcácer do Sal, 1502 – Coimbra, 11/ 08/ 1578 ), Amato Lusitano ( Castelo Branco, 1511 – Tessalónica, 1568 ) Gaspar Frutuoso ( Ponta Delgada, c. 1522 – Ribeira Grande, 24/ 08/ 1591 ) e, caroalmente, o Carlos d’Abreu ( Maçores, 15/ 09/ 1961 ). E alunos espanhóis, no astro e no estro, da Universidade de Salamanca: S. João da Cruz, Góngora, Calderón de la Barca e, ademais, Abraão Zacuto. Fray Luís de León ( Belmonte, 1527 ou 1528 – Madrigal de las Altas Torres, 23/ 08/ 1591 ), ele teve outrossim, como «alma mater», a Universidade de Salamanca, na Universidade salamanquina ele foi, também, Professor. E quanto, agora, a Miguel de Unamuno: além de Professor, ele foi Reitor, deveras, da Univers(al)idade, de 1901 a 1914 e, ademais, de 1931 a Agosto, agora, de 1936. A 1 de Setembro ele volta ao cargo, mas apenas durante um mês: por desentendimentos com o General Franco ( Ferrol, 04/ 12/ 1892 – Madrid, 20/ 11/ 1975 ), ele foi, de novo, exonerado. Pois depós uma querela com o General Millán-Astray ( Corunha, 05/ 07/ 1879 – Madrid, 01/ 01/ 1954 ), eis que disse, Unamuno, perante os militares: «Vencereis, mas não me convencereis.» Pois trazemos, aqui, à colação: as últimas semanas da vida de Unamuno ele as passou, deveras, em prisão, adrede, domiciliária. E ora vamos, atento, à História: fundados pois, os Estudos Gerais, por El-Rei Afonso IX, em 1218, eles foram confirmados, como Universidade, por Carta Magna de Afonso X, o Sábio ( 1252 – 1284 ) em 1254, e reconhecidos, em 1255, por o Papa Alexandre IV ( 1254 – 1261 ). Pois se o papel do aluno é ser alimentado, o papel do Doutor é pois criar, elaborar, a-presentar a doutrina. E averbemos, aqui mesmo, o Poeta e Professor António Salvado ( Castelo Branco, 20/ 02/ 1936 – Castelo Branco, 05/ 03/ 2023 ): se ele recebeu, em 1986, a Medalha de Mérito da Universidade Pontifícia de Salamanca, a ele foi doada, em 2021, a Medalha Fray Luis de Leão de Poesia Ibero-Americana. Pois quer a Ángeles docente, quer o discente, serão alados e almados, serão fortes e férteis em escala-didascália. Apetece, aqui, citar, novamente, Pitágoras, na Ágora, o Áugure pítico: «Quem fala, semeia, quem escuta, colhe.» E se vive, o homem moderno, no esquecimento do Ser, qual o escopo, e a escola, do Ensino Superior??? E a resposta é muito simples: é criar dessarte o escol, é forjar, e é formar, o homem autêntico, a caminho da acribia. Ela é página e Paideia, é a «Tinta que deseja transformar-se em oxigénio». Seja ela o berço e o banquete. Seja linde e seja linda em coração do ledor.
NOTA BENE
O nosso ledor, agora, já sabe: os números são nomes e os nomes são os Numes. Já o dissemos, noutro passo, não é de mais reiterá-lo: seguindo e segundo Galileu Galilei ( Pisa, Itália, 15/ 02/ 1564 – Arcetri, Itália, 08/ 01/ 1642 ), «a Matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o Universo.» Exarado, portanto, aqui já ficou: foi nada, María Ángeles, em Valladolid, em 22 de Junho de 1967. Os exemplos não faltam duma grande, grande Luz: se Wilhelm von Humboldt nasceu a 22 de Junho de 1767, foi nado, Henry Rider Haggard, a 22 de Junho de 1856. Se nasceu, Erich Maria Remarque, a 22 de Junho de 1898, foi nada, a 22 de Junho de 1949, a maviosa Meryl Streep. E, finalmente, a 22 de Junho de 1964, vê a luz do dia o denodado Dan Brown. Ou seja, o feitor, figadal, de «O Código da Vinci» ( 2003 ). Sem esquecermos, aqui, da Autoria de Shakespeare ( Stratford-upon-Avon, 23/ 04/ 1564 – Stratford-upon-Avon, 23/ 04/ 1616 ), «A Midsummer Night’s Dream», «O sonho», deveras, «de uma Noite de Verão». E não leixemos no oblívio: acareemos, aqui, uma mulher de coturno, uma Senhora portuguesa das letras e artes. A «persona» Fátima Murta foi nada em Faro, em Alcoutim, a 22 de Junho de 1958. Frequentou, na Faculdade de Letras, o curso de Filosofia, não chegando, todavia, a findá-lo. Tem, a Fátima, um currículo invejável: sendo Actriz, Declamadora, Música e Escritora, dedica-se, outrossim, às Artes Plásticas. Como publicista, escreve contos, Poesia, letradura pra crianças. Como Actriz, participou em «Manhã Submersa» ( 1980 ), «Um Crime de Luxo» (1991) e «Lusitana Paixão» ( 2003 ). Nas Artes Plásticas, labora em Pintura, Tapeçaria, Desenho e «Cartoon». Lançado em Junho de 2006, parabenteemos, na Literatura infantil, «Agostinho da Silva – o Português dos 3 M». Em Poesia, ou profecia, se destaca, em 1983, com «Sobre a Terra»; em 1987, com «Coisa Talvez Amada» e, em 2024, ela figura, fulgor, com «Sede de Paz: Poemas a Azul e Amarelo». E ora vamos, então. Em lauto e alto pitagorismo, o número 22 é chamado um Número Mestre. São 22 as letras do alfabeto hebraico, são 22 os capítulos do feraz Apocalipse, e, no Tarot, dessarte, ou Livro de Thoth, 22 é o número dos Arcanos Maiores. Que a Avestá, de Zoroastro, é composta de livros em 22 capítulos. E é que, não raro, o 22 é o Místico, é o Caminho da difusão da Luz sobre a Terra. Ou dito doutro modo, é o número de quem labora para toda a Humanidade, de quem é, de boa-fé, um Construtor das Catedrais. A 22.ª letra do alfabeto hebraico ela é, tempestiva, a letra Tau, que é, juntamente com o Ankh ou «Cruz Ansata», a antepassada da cruz cristã. Essa letra era usada, no seu hábito, por os Cónegos Regulares de Santo Antão. E São Francisco de Assis ( Assis, Itália, 1181 ou 1182 – Assis, Itália, 03/ 10/ 1226 ), outrossim, adoptou o Tau como o símbolo, selecto, da sua congregação. Talvez por ser, o Tau, a última letra, a letra, desse modo, dos Frades Menores. E por isso María Ángeles tem pontos de vista universalistas, Immanuel Kant, «verbi gratia», foi nado em Konigsberg, a 22/ 04/ 1724. Quanto a Jorge Telles de Menezes, o celebérrimo Autor de «Poemas do Lar» (2019): ele foi nado no Porto, Invicta Cidade, a 22/ 08/ 1951 – e 1951 + 30 = 1981, sendo 10 + 9 = 19 – e é a Luz, o fulgor, o brilhantismo do Sol. E os 22, deveras, desenvolvendo trabalho junto do público, poderão dar-se bem no mundo dos negócios, e tem, o 22, ele tem pressentimentos que normalmente estão certos. Mas há mais, ainda mais: somando o número do dia com o número do mês nós chegamos, nitentes, ao número da Missão: falando angélico da Ángeles, 22 + 6 = 28, sendo 2 + 8 = 10, e 1 + 0 = 1. Sua via é a vida de um caminho «sui generis», por vezes solitário, mas essa soledade ela é utilizada em prol das Letras e das Artes, isto é, na construção da Grande Obra. As palavras-chave elas são: independência de ideias, automotivação, autonomia, auto-suficiência, muita força de vontade. E sendo, o 22, um número feminino, manifesta interesse e cuidado por o próximo, por a humanidade, por a comunidade, por a Paz no planeta. É, como em Gandhi (Porbandar, Índia, 02/ 10/ 1869 – Gandhi Smriti, Nova Delhi, Índia, 30/ 01/ 1948), o «Satyagraha», a força da verdade e da não-violência. Entre muitos nitentes, e portentos, de facto, quatro exemplos, tão-só: o grande Lord Byron, o criador de «A Peregrinação de Childe Harold» (1812 – 1818), foi nado em Londres, a 22 de Janeiro de 1788. O Autor de «O Mundo como Vontade e Representação» (1818), Arthur Schopenhauer, nasceu em Gdansk, na Polónia, a 22 de Fevereiro de 1788. E, finalmente, Max Scheler, maviosamente, foi nado em Munique, na Alemanha, a 22 de Agosto de 1874. Este último sendo, para Ortega y Gasset (Madrid, 09/ 05/ 1883 – Madrid, 18/ 10/ 1955), «o primeiro homem do paraíso filosófico». E, ademais, Filippo Tommaso Marinetti. Poeta e activista, foi ele o criador do movimento futurista. Sendo nado em Alexandria, a 22 de Dezembro de 1876, foi ele um dos precípuos feitores do fascismo na Itália. E ora vamos forte em frente. De Gary Goldschneider e Joost Elffers, no lance, respigamos o seguinte: 22 de Junho é, deveras, «o dia», decerto, «da exaltação romântica», que o rimance é romance e o romanço é qual a rima. Que o 22, ademais, ele é regido por Úrano: é o planeta dos erráticos, excêntricos e da vanguarda, da raiva, da revolta e da neurose criadora. Fortemente original, o 22 é, não raro, o número do Génio, do gerador, germinal e da generosidade. E Úrano é o símbolo, nitente, da capacidade intelectual, dos talentos variados e da abertura ao progresso, e a Poesia de Ángeles, dessarte, é suflada ou inspirada. A par do Úrano, é, Pérez López, movida por a Lua, a Lua é o Astro que rege o Caranguejo. A Lua que é senhora da noite, do subconsciente, do pensamento, na mente, mágico-simbólico. E que rege, também, a popularidade. E é, a «Luna», o apanágio do «naif», daquele em quem vive, ou sobrevive, o anjo da infância. E vamos, nós outros, a outro capítulo. Pois somando, em aticismo, somando os dígitos, deveras, da data natal: ela é 22/ 06/ 1967. Ora 2 + 2 + 6 + 1 + 9 + 6 + 7 = 4 + 16 + 13 = 20 + 13 = 33, e bem-vinda seja pois a idade do Cristo. Que o legente, agora, não fique estupefacto: foi nado em Ulm, Einstein, a 14 / 03/ 1879: ora 1 + 4 + 3 + 1 + 8 + 7 + 9 = 8 + 9 + 16 = 17 + 16 = 33. Outrossim Maria Azenha, Poetisa de prol, foi nada em Coimbra, cidade doutora, a 29/ 12/ 1945. Ora 2 + 9 + 1 + 2 + 1 + 9 + 4 + 5 = 11 + 4 + 18 = 15 + 18 = 33. Averbando, então, María Ángeles, 33 é o Número Kármico, ou de vida, da nossa Poetisa. Ele possui, duplicada, a força do 3, o triângulo dos «maçons», que simboliza a criação. O 33 é, acima de tudo, uma angélica bondade, um mensageiro de Beleza, de Amor e de Harmonia. De generosidade, de serviço e de solidariedade. É o símbolo, como já disse, duma oblata, de alguém que vive, de boamente, para o bem da Humanidade. Pois dados os informes, não admira que Ángeles exerça o magistério: ela é plasmada, ou marcada, por dois Números Mestres, como sejam, «verbi gratia», o 22 e o 33. É que podem contar, com a angélica Ángeles, para a cultura e instrução, e não e nanja, nunca, jamais, para a fatal destruição. Pois plasma, o 33, dous nomes universais: D. H. Lawrence e, finalmente, o Fred Astaire. David Herbert Lawrence, o Autor, acareado, de «Lady Chatterley’s Lover» ( 1928 ), foi nado em Nottingham, Reino Unido, a 11/ 09/ 1885, sendo 2 + 9 + 1 + 8 + 8 + 5 = 11 + 9 + 13 = 20 + 13 = 33. E vamos, agora, ao formidando Fred Astaire. Nasceu em Omaha, Nebraska, a 10/ 05/ 1899, sendo 6 + 1 + 8 + 18 = 15 + 18 = 33. Revertendo, agora, à feitora e Autora: em demanda, agora e sempre, do Amor e da harmonia, a Arte nela é uma graça, a Arte nela é sinónimo de luz e protecção, e ela se cifra, ou simboliza, na esfera do sagrado. Que o legente, agora, me releve: um tudo nada, na jorna, de Astrologia. Os nascidos entre 19 e 24 de Junho pertencem à Cúspide Gémeos-Câncer, ou melhor: equilibrando a lógica com a emoção, eles adunam a inteligência comunicativa de Gémeos com a sensibilidade emocional de Caranguejo, criando «personae» mágicas, magísteres, magnificentes. São conhecidos, por isso mesmo, como a «cúspide da magia e da sensibilidade», e combinam, no seu estro, o Mercúrio com a Lua. Em linguagem simbólica, o Anjo das pessoas nascidas entre 21 e 25 de Junho se chama, na chamada, «o Amável», e é regida, a nativa, por Júpiter, Vénus, por a Lua do lai. No jeito e no jogo de afinidades electivas: se foi nada, María Ángeles, em 22 de Junho de 1967, nasceu, Jean-Paul Sartre, na cidade parisina, a 21 de Junho de 1905; quer num caso, quer noutro, Mercúrio, ou Thoth, o deus da Magia. E na verve, ainda, ainda: por duas etapas, da vida de Ángeles, nós jornadeemos. O primeiro ciclo, ou ciclo da partida, é regido por o 1, e ele decorre desde o nascimento até aos anos 30. O quarto ciclo, ou ciclo da colheita, é sinalado por o 2, e se desenrola a partir, dessarte, dos 48 anos. Ora o 1 é um número de coragem, firmeza, autonomia e ambição, ele rege o sucesso, o domínio, uma farta e uma forte originalidade. Foi, de feito, um período activo, positivo, e pleno de mudanças. Dos 48 anos até à hora do seu transe, é pois, o 2, um novo actor, deveras, na távola redonda. Ele simboliza a colaboração, a cooperação e a diplomacia, a tolerância, a paciência, o trabalho em equipa. Mas tem de aceitar, a consulente, que os outros ajam e pensem de forma diferente. É seu o caminho do coração, da associação, do amor e harmonia com os entes que a rodeiam. Ou melhor: é o álacre e a «Alêtheia», uma ek-stática insistência na Verdade do Ser. E guardamos, para o fim, bondosa Boa Nova. 22 são, decerto, os Caminhos de Vida de António Manuel Couto Viana, Sigmund Freud, Pierre Janet e, alfim, Tenzin Gyatso, o actual Dalai Lama. António Manuel Couto Viana, Poeta, «diseur» e Tradutor, Professor, de feito, e lídimo Actor, foi nado em Viana do Castelo, a 24/ 01/ 1923. Ora 2 + 4 + 1 + 1 + 9 + 2 + 3 = 7 + 10 + 5 = 22. Estreando-se, poeticamente, em 1948, com o «O Avestruz Lírico», ele teve, de feito, dous Prémios Antero de Quental: um, em 1949, com «No Sossego da Hora», e outro, em 1959, com «Mancha Solar». Figura central no Teatro português do vigésimo século, ele foi Actor, Encenador, Dramaturgo e Empresário, ele actuou, «verbi gratia», no Teatro da Mocidade e no Teatro da Trindade. Através da mão amiga de David Mourão-Ferreira, se debutou, em 1946, qual cultor e Actor, no Teatro Estúdio do Salitre, em Lisboa. Sendo, outrossim, empresário e director do Teatro do Gerifalto. Membro da Academia de Ciências de Lisboa, foi ele um dos responsáveis, juntamente com Luís de Macedo (Lisboa, 28/ 09/ 1901 – Lisboa, 13/ 11/ 1971), Ruy Cinatti ( Londres, 08/ 03/ 1915 – Lisboa, 12/ 10/ 1986 ) e David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/ 02/ 1927 – Lisboa, 16/ 06/ 1996), por as Folhas de Poesia Távola Redonda (1950 – 1954). Esse projecto literário durou 4 anos, de 15 de Janeiro de 1950 a 15 de Julho de 1954; vieram a lume, deveras, 20 fascículos. E qual regente ele dirigiu, com «adresse», a revista «Camarada» ( 1949 – 1951 ), e, entre 1950 e 1954, a «Graal», revista de cultura. Em parentética apostilha: na História da Cultura, a Amizade que havia entre Marx (Tréveris, 05/ 05/ 1818 – Londres, 14/ 03/ 1883) e Engels ( Barmen, 28/ 11/ 1820 – Londres, 05/ 08/ 1895 ) só se pode comparar à Amizade que nutria, David Mourão-Ferreira, por António Manuel Couto Viana. Em súmula e em suma: deu a lume, este último, 50 livros de Poesia e cerca de 80 títulos de outros géneros literários. E chegamos a Sigmund Freud, o criador e promotor de uma nova antropologia. Não foi ele quem descobriu o inconsciente, mas foi ele quem lhe deu um tratamento científico. Foi nado, o facultativo, em Freiberg, Morávia, a 06/ 05/ 1856. Ora 1856 + 11 = 1867 – e 1 + 8 + 6 + 7 = 9 + 13 = 22. Foi, a par de Nietzsche (Rocken, Lutzen, Alemanha, 15/ 10/ 1844 – Weimar, Alemanha, 25/ 08/ 1900) e de Marx (Tréveris, Alemanha, 05/ 05/ 1818 – Londres, Inglaterra, 14/ 03/ 1883), um dos magnos, maviosos, «Mestres da Suspeita», assim os apodou, prementemente, o Paul Ricoeur (Valence, França, 27/ 02/ 1913 – Châtenay-Malabry, França, 20/ 05/ 2005). E averbemos, agora, Pierre Janet. Sobrinho do filósofo Paul Janet (Paris, 30/ 04/ 1823 – Paris, 04/ 10/ 1899), ele foi de facto, mesmo antes de Freud, pioneiro no estudo do subconsciente. Nado em Paris, providencialmente, a 30/ 05/ 1859. Fazendo as somas, então, seu Kármico número é 1859 + 8 = 1867, sendo 9 + 13 = 22. Só isso explica, em 1889, a benesse e a beleza da sua tese de doutoramento em Letras: «O Automatismo Psicológico: Ensaio de Psicologia Experimental sobre as Formas Inferiores da Actividade Humana». Como sejam, seguindo e segundo o preste parisino, a hipnose, o sonambulismo, a histeria e a sugestão. O mesmo nós dizendo da escrita automática, quer dos espíritas, quer, outrossim, dos surrealistas. Tudo fenómenos que escapam, figadais, ao controle da consciência. Sendo, Janet, o criador do termo «psicastenia», que significa, de feito, «fraqueza psicológica». E essa psicastenia, chamada, na flama, a «doença de Janet», ela é, deveras, a «perda da função do real.» E sendo a histeria, para o facultativo, «um estreitamento do campo da consciência». E é que, em 1903, o termo «psicastenia» foi forjado, sem jaça, por Pierre Janet, em seu «opus», magistral, «Les Obsessions et la Psychasthénie», «As Obsessões e a Psicastenia» no luso linguajar. Que em 1893, e defendida perante o insigne Charcot ( Paris, 29/ 11/ 1825 – Montsauche-les-Settons, Morvan, 16/ 08/ 1893 ), apresenta, Janet, sua tese de doutoramento em Medicina, «L’état mental des Hysteriques», ou seja, «O Estado Mental dos Histéricos». Também em 1893 ele é alçado, como adjunto de Charcot, a Director do Laboratório de Psicologia patológica na Clínica, curial, da Salpêtrière. E é que em 1902 ele sucede, a Théodule Ribot ( Guingamp, 18/ 12/ 1839 – Paris, 09/ 12/ 1916 ), na Cátedra do Colégio de França, onde ensina, de boamente, até 1934, Psicologia Experimental e Comparada. Quanto ao mais, reiteramos: a catarse de Sigmund Freud ( Freiberg in Mahren, 06/ 05/ 1856 – Londres, 23/ 09/ 1939 ), e antes dele do Estagirita ( Estagira, Grécia, 384 – Cálcis, Grécia, 322 a. C. ), ela é, no fundo, a «desinfecção moral» do Pierre Janet ( Paris, 30/ 05/ 1859 – Paris, 24/ 02/ 1947 ). E chegamos em vida, comovido, a Tenzin Gyatso, o actual Dalai Lama. Ele nasceu em Taktser, no Tibete, em 06/ 07/ 1935. Ora 1935 + 6 + 7 = 1935 + 13 = 1948, sendo 1 + 9 + 4 + 8 = 10 + 12 = 22. O mesmo 22 que lhe doou, deveras, o Prémio Nobel da Paz, a 10 de Dezembro de 1989. E alteamos, aqui, Óscar González-Quevedo Bruzón, mais conhecido como o Padre Quevedo. Ele foi nado, em Madrid, a 15/ 12/ 1930 – e 1 + 5 + 1 + 2 + 1 + 9 + 3 = 6 + 3 + 13 = 9 + 13 = 22. Autor e promotor de «A Face Oculta da Mente» (13/ 11/ 1964), possuindo, sem dolo, cinco licenciaturas, o Jesuíta é, sem jaça, o expoente maior da Parapsicologia. Este homem, que era Nume e que era lume da cidade madrilena, recitava, de cor, a Bíblia em Latim. Que além do Português e Espanhol, ele lia e falava, fluentemente, Latim, Grego e Hebraico, o Francês, o Inglês, o Italiano e Aramaico. Ele fundou, a 11 de Maio de 1970, em São Paulo, no Brasil, o Centro Latino-Americano de Parapsicologia ( CLAP ). E relevamos, no lance, agora mesmo, George Agostinho Baptista da Silva, Agostinho da Silva de seu artístico nome. É que o Autor de «Vida Conversável» (1994), ele foi nado no Porto, a 13/ 02/ 1906 – e 1 + 3 + 2 + 1 + 9 + 6 = 7 + 15 = 22. O digamos, agora, cultualmente: em 1928, com 22 anos apenas, termina, Agostinho, a licenciatura em Filologia Clássica por a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, obtendo, no carme, a classificação máxima de «summa cum laude» ( 20 valores ). E ora vamos forte em frente: 22 é também o Kármico número, quer de Frank Sinatra, quer, também, de Margaret Thatcher. Frank Sinatra, conhecido internacionalmente, foi nado em Hoboken, New Jersey, a 12/ 12/ 1915 – e 3 + 3 + 10 + 6 = 16 + 6 = 22. Quanto a Margaret Thatcher, que foi, do Reino Unido, Primeira-Ministra, ela nasceu, notavelmente, em Grantham, a 13/ 10/ 1925 – e 4 + 1 + 1 + 9 + 2 + 5 = 6 + 11 + 5 = 17 + 5 = 22. E remembremos, averbando o Dalai Lama, que Allen Ginsberg (Newark, New Jersey, 03/ 06/ 1926 – East Village, Nova Iorque, 05/ 04/ 1997), Poeta e activista estado-unidense, foi promotor e praticante da Via do Buda, ele inspirou-se, no Buda, pra transmudar o mundo imundo. Bem afecto e afeito a Chogyam Trungpa Rinpoche ( Came, 05/ 03/ 1939 – Halifax, Canadá, 04/ 04/ 1987 ), pronunciou, Ginsberg, os votos budistas, em 6 de Maio de 1972. Em 1956, Allen foi Autor, e o feitor, de «Howl and Other Poems», «Uivo e Outros Poemas», publicitado, em 1 de Novembro, em San Francisco, por a Editora City Lights, de Lawrence Ferlinghetti (Bronxville, Nova Iorque, 24/ 03/ 1919 – San Francisco, California, 22/ 02/ 2021). Que o 22, deveras, tem três significados: ele é o signo dos génios, dos loucos, ou então dos ditadores. Averbemos, «verbi gratia», António de Oliveira Salazar: é que ele foi nado em Vimieiro, a 28/ 04/ 1889, sendo, pois, 28 + 4 = 32, e 3 + 2 = 5. Ora 1889 + 5 = 1894, e 1 + 8 + 9 + 4 = 9 + 13 = 22. Revertendo ao nosso tema, lema ou emblema, María Ángeles é membro, mavioso, da Academia Norte-Americana de Língua Espanhola. E ela faz parte, ou participa, da Academia de Juglares de Fontiveros, sendo, essa mesma Fontiveros, o sítio natal de São João da Cruz ( Fontiveros, 24/ 06/ 1542 – Úbeda, 14/ 12/ 1591 ), patrono dos Poetas de língua espanhola. Ou melhor: María Ángeles, deveras, ela imana e se irmana em jardim de Academus. Quero eu dizer: com justiça e com justeza, María Ángeles é, de feito, filha adoptiva da ferace Fontiveros. E chegamos então ao fim. E foi, de facto, duma Alumbrada, duma Poeta que eu falei: que rompam, deveras, as águas da matriz.
PARALIPÓMENOS
«O homem vive de razão e sobrevive de sonhos.»
Miguel de Unamuno
Letradura, de acordo com Breton (Tinchebray, 19/ 02/ 1896 – Paris, 28/ 09/ 1966 ), são «Os Vasos Comunicantes» ( 1932 ). São, no razoar de Goethe ( Frankfurt am Main, 28/ 08/ 1749 – Weimar, 22/ 03/ 1832 ), «As Afinidades Electivas» ( 1809 ). E como já averbámos a propósito de João Belo ( Cebolais de Cima, 25/ 06/ 1959 ), o Filósofo e o Poeta, María Ángeles é, deveras, Pastora do Ser, ela escruta, e está à escuta, das vozes recônditas que vêm do Ser. Sejamos então o arquitecto, e a História aqui se arquive. Se debutando, em 1997, com «Tratado sobre la geografia del desastre», outros títulos, ou livros, de água primeira: «La Sola Materia», ( Prémio de Poesia «Tardor», 1998 ), «Carnalidad del frío» (Prémio de Poesia «Ciudad de Badajoz», 2000), e, ademais, «Atavío y Puñal» ( 2012 ). O seu «liber» de 2016, «Fiebre y Compasión de los Metales», foi finalista, figadal, do «Premio Nacional de la Crítica». Em 8 de Março de 1996, María Ángeles Pérez López defende, na Universidade de Salamanca, sua tese, tempestiva, de Doutoramento: «Narrativa y modernidad en Vicente Huidobro ( 1929 – 1942 ). Claves para un acercamiento». Sendo essa prova dirigida, com «adresse», por a Dra. Carmen Ruiz Barrionuevo. No estado e no estudo da especulação, obteve, a tese e a estese, o Prémio Extraordinário de Doutoramento. E as obras da Luz elas chamam a Luz: em 24 de Setembro de 2024, María Ángeles recebe, da Fundação Iberoamericana para as Artes e da Fundação Vicente Huidobro, a Medalha, magistral, Vicente Huidobro. Ademais, na Universidade salamanquina a Poeta coordena, sagazmente, a Cátedra Chile: Chile o país, proveito e provecto, onde se aduna, Vicente, a Pablo Neruda ( Parral, 12/ 07/ 1904 – Santiago, 23/ 09/ 1973 ), Pablo de Rokha ( Licantén, 17/ 10/ 1894 – Santiago, 10/ 09/ 1968 ) e Gabriela Mistral ( Vicuña, 07/ 04/ 1889 – Hempstead, 10/ 01/ 1957 ). Tendo sido, a mesma Mistral, Prémio Nobel da Literatura em 10 de Dezembro de 1945. E Neruda outrossim, a talho de foice, em 21 de Outubro de 1971. E ora vamos, então: Vicente García-Huidobro Fernandéz, de seu nome completo, nasceu em Santiago do Chile, a 10 de Janeiro de 1893, e faleceu, de feito, em Cartagena, em 2 de Janeiro de 1948. Em juventa jovial, estudou no Colégio de Santo Inácio, regido e dirigido por os Padres Jesuítas. Jesuítas que educaram, em Portugal, o Poeta e Pintor Almada-Negreiros ( Fazenda Saudade, Ilha de S. Tomé, 07/ 04/ 1893 – Lisboa, 15/ 06/ 1970 ), Jesuítas que educaram, outrossim, o valente Voltaire ( Paris, 21/ 11/ 1694 – Paris, 30/ 05/ 1778 ), no Colégio Louis-le-Grand ( 1704 – 1711 ), em Paris. A talho de foice, em Puerto de Santa María, Juan Rámon Jiménez ( Moguer, Andaluzia, 23/ 12/ 1881 – San Juan, 29/ 05/ 1958 ), Prémio Nobel da Literatura em 1956, também estudou, estreme e extremo, com os Padres Jesuítas. Mas há mais, ainda mais: Denis Diderot ( Langres, 05/ 10/ 1713 – Paris, 31/ 07/ 1784 ), que chegou a receber a tonsura, ele foi aluno, em Langres, dum colégio jesuíta. E quanto, agora, a Huidobro, o vicentino manifesto «Non Serviam», de 1914, é considerado, por os historiadores latino-americanos, como o marco inicial das dianteiras, vanguardas, na América Espanhola. Ele fez, em 1916, uma viagem a Paris, donde passou, depois, para a cidade madrilena. Em Paris trava Amizade com Guillaume Apollinaire, (Roma, Itália, 26/ 08/ 1880 – Boulevard Saint-Germain, Paris, 09/ 11/ 1918), Juan Gris (Madrid, 23/ 03/ 1887 – Boulogne-Billancourt, França, 11/ 05/ 1927 ) e Pablo Picasso (Málaga, Espanha, 25/ 10/ 1881 – Mougins, França, 08/ 04/ 1973), participando, presto e pronto, na revista «Nord-Sud», fundada, em 1917, por Pierre Reverdy ( Narbona, França, 13/ 09/ 1889 – Solesmes, França, 17/ 06/ 1960 ), nome de prol e de peso em movimento supra-real. Cerca de 1920, eram afeitos, e afectos, ao movimento criacionista: Juan Larrea, Gerardo Diego e, ademais, o peruano, presto e pronto, César Vallejo ( Santiago de Chuco, 16/ 03/ 1892 – Paris, França, 15/ 04/ 1938 ). Em Madrid colabora no «Ultra» magazine, publicação que deu o nome à escola do «ultraísmo»: é que a Hora, para o «Ultra», era a Hora estreme e extrema. Da revista madrilena, regida e dirigida por H. Rivas Panedas, a lume vieram 24 números, entre 27 de Janeiro de 1921 e 15 de Março de 1922. De relevo e realce, entre os seus colaboradores: Gerardo Diego, Guillermo de Torre e Jorge Luis Borges. Em 1925, já no Chile, Huidobro apresenta, caso raro num Poeta, sua candidatura, curial, à Presidência da República. Mas Vicente fica na História por ter teorizado, no lance, o escol e a escola do «Creacionismo». Ele difunde, e ele defende, o seguinte e o requinte: mais do que imitar a natureza, através da «mimesis», o Poeta cria, com a palavra, uma supra-realidade. Em «Arte Poética», da lavra «El Espejo de Agua», «O Espelho de Água», em 1916, demanda o chileno: «Por que cantais a rosa, ó Poetas? / Fazei-a florescer no poema». E é como aduzem, os doutos, em escala-didascália: na Poesia de Vicente, o significante vale mais do que o significado, e é siderado, o Poeta, como «um pequeno Deus», um deus criador à escala do Cosmos. Que o poema é para o chileno realidade autónoma, o poema é deveras um animal vivo. Para Vicente, afinal, a criação é do Poeta a vis premente e patente. E é como em Leonardo Coimbra ( Borba de Godim, 30/ 12/ 1883 – Porto, 02/ 01/ 1936 ) e em Teixeira de Pascoaes (Gatão, 02/ 11/ 1877 – Amarante, 14/ 12/ 1952), o Poeta, coa Palavra, ele conclui a criação, que Deus somente iniciara. Sendo pois, a criação, superna e superiora à procriação. Cotejemos, agora, o razoar de Vicente com o pensar, e mentar, de Miguel de Unamuno (Bilbau, 29/ 09/ 1864 – Salamanca, 31/ 12/ 1936). Aduz e diz, dessarte, o director e Reitor: «A fé cria, de certo modo, o seu objecto. E a fé em Deus consiste em criar Deus.» Fazendo um paralelo com o Professor, e professo, Agostinho da Silva ( Porto, 13/ 02/ 1906 – Lisboa, 03/ 04/ 1994 ), «o homem não nasceu para trabalhar, mas sim para criar», a isso chama, o Agostinho, o ser «Poeta à solta». Pois segundo o Peripatético (Estagira, 384 – Cálcis, 322 a. C.), o homem, além de ser da «polis», é um animado, ou animal, provido de «Logos», a ele cabe, deveras, o transmudar o mundo com a força da Palavra… Foi com palavras que fundou, Allen Ginsberg ( Newark, New Jersey, 03/ 06/ 1926 – Manhattan, New York, 05/ 04/ 1997 ), o movimento «hippie», foi com palavras que fez, Martinho Lutero ( Eisleben, Alemanha, 10/ 11/ 1483 – Eisleben, Alemanha, 18/ 02/ 1546 ), a Reforma Protestante. É com palavras que laboram, de boamente, o facultativo, o Poeta e o Psicoterapeuta. Sendo a Psicanálise, para Anna O., uma «talking cure», isto é, uma «cura por a Palavra». E como já dissemos: quem doutrina, ou quem assina, ele ensina através dos signos linguísticos. Sendo María Ángeles (Valladolid, 22/ 06/ 1967), afinal, o crisma e o carisma, a Pastora do Ser e a missionária de palavras. Missionária, ou emissária, de comunicação e de solidariedade. E averbemos, aqui, de Henri Bergson ( Paris,18/ 10/ 1859 – Paris, 04/ 01/ 1941 ), «L’Évolution Créatrice» (1907), «A Evolução Criadora»; esta Obra, caroal e supimpa, foi de prol e de peso para o Espiritualismo. Como foi terminante, para Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, 05/ 06/ 1898 – Granada, 18/ 08/ 1936), o trovar, tempestivo, de Vicente Huidobra (Santiago do Chile, 10/ 01/ 1893 – Cartagena, 02/ 01/ 1948). Vamos pois, com María Ángeles ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ), nós vamos pois todos, ao Ser e ao Tempo, ao Tempo e o Modo. Agora vamos, então. Ou vamos ora, simplesmente, aprender a dançar……………………………………………..
NOTA BENE
I
Após a leitura de «Jardin(e)s Excedidos» ( Fevereiro de 2018 ), foi-nos dado, desta feita, inferir e aferir: aplicando a Psicologia de Carl Rogers ( Oak Park, Illinois, 08/ 01/ 1902 – La Jolla, San Diego, Califórnia, 04/ 02/ 1987 ) ao ensino da Literatura, a didáctica da Autora é cordial e não-directiva, ela é centrada, preste, preste, na pessoa do aluno. Como sucedia, outrossim, com Emmanuel Mounier ( Grenoble, França, 01/ 04/ 1905 – Châtenay-Malabry, França, 22/ 03/ 1950 ), a pessoa humana está sempre e sempre e sempre – no seu campo de acção. Que, acima de tudo, a escala de María Ángeles ( Valladolid, 22/ 06/ 1967 ) é curial e heterodoxa, ela é um escol, e uma escola, da Santa Liberdade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
II
Dilucidemos, de feito: «O génio supremo é o santo» seguindo e segundo o Guerra Junqueiro ( Freixo de Espada à Cinta, 15/ 09/ 1850 – Lisboa, 07/ 07/ 1923 ). São João da Cruz (Fontiveros, 24/ 06/ 1542 – Úbeda, 14/ 12/ 1591), que era Frade, foi carmelita, sacerdote e Poeta espanhol. Conhecido, na «ecclesia», e por antonomásia, como o Doutor Místico, sua festa litúrgica ela é, de feito, a 14 de Dezembro. E sendo, no século, Juan de Yepes y Alvarez, foram, seus progenitores, Gonzalo de Yepes, um pobre tecelão, e Catalina Álvarez. Entre filhos, que eram três, ele foi decerto o benjamim. E muito cedo perde o Pai, perde o Pai, deveras, aos 2 anos apenas. Começando, aos 6 anos, a ganhar sua vida como estreme aprendiz. Com 9 anos se transferiu, com a Mãe e o irmão Francisco, para Medina del Campo, bem perto, bem próximo, de Valladolid. Como Escritor nos leixou, deveras e adrede: «Noite Escura da Alma», «Subida do Monte Carmelo», «Chama Viva de Amor» e «Cântico Espiritual». Sentindo, selecto, o chamamento, ele começa, em Medina del Campo, por dar assistência aos indigentes e miseráveis internados no hospital, pra quem esmolava, dessarte, nas ruas da cidade. E entre 1559 e 1563, de boamente, ele estuda Humanidades com os Padres Jesuítas. Em 1563, aos 21 anos, ele ingressa, egregiamente, na Ordem Carmelita, adoptando dessarte o nome de Frei João de São Matias. Recebendo o hábito, belamente, a 24/ 02/ 1563, e em Medina del Campo. Professando, proficiente, em 1564. De 1564 a 1568, estuda Artes e Teologia na Universidade salamanquina. Sendo, em 8 de Setembro de1567, ordenado Sacerdote; em 1567, celebra, em Medina, a Missa Nova. Conjuntamente com Teresa de Ávila ( Ávila, Espanha, 28/ 03/ 1515 – Alba de Tormes, Espanha, 04/ 10/ 1582 ), que ele conheceu em Medina, em 1567, reformou a Ordem do Carmo, e fundando, de feito, os Carmelitas Descalços. Teresa de Ávila, no culto, é também conhecida como Santa Teresa de Jesus, ela era, no mundo, Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada. Quanto a João, ele foi, de facto, uma figura-fulgor da Contra-Reforma. Com a ajuda de Santa Teresa, de quem era, de feito, Mestre e confessor, a abertura da primeira casa de Carmelitas Descalços ocorreu em Duruelo, lugar de Ávila, em 28 de Novembro de 1568, primeiro Domingo do Advento. Em Duruelo se instala, com «adresse», com Frei António de Jesus ( António de Herédia ) e Frei José de Cristo ( José de Salazar ); pra sinalar, ou celebrar, a vida nova, ele muda pois o nome para Fray Juan de la Cruz. Mas surde deveras um litígio entre Carmelitas Calçados e, de facto, os Carmelitas Descalços, Reformados radicalmente. Na noute de 3 de Dezembro de 1577, por estultícia e por inveja, ele foi raptado do Convento da Encarnação de Ávila e encarcerado, por os Calçados, no Convento de Toledo. E fica meses 8 num quarto sem luz, submetido a vexames e a maus-tratos corporais; o calabouço era um buraco com dez pés de comprimento e seis de largura. E ele escapou-se, do aljube, em 16/ 17 de Agosto de 1578. E exorcizando o diabril, ele escreve, na prisão, o «Cântico Espiritual»; das 39 estrofes ele compõe, no segredo, as 30 primeiras. Que o exprimir, literariamente, é dejectar e espremer o pus e o fel da ferida narcísica; pois seguindo e segundo o Tertuliano ( Cartago, c. 160 – Cartago, c. 220 ), «sangue dos mártires é semente de cristãos». Em ano sagrado e selecto de 2026, celebram-se, beletristas, os 300 anos da sua canonização, por o Papa Bento XIII ( 1724 – 1730 ), a 27 de Dezembro de 1726. E comemora-se, outrossim, o centenário da sua proclamação, providencial, como Doutor da Igreja, por o Papa Pio XI (1922 – 1939), através da Carta Apostólica «Die Vicesima», a 24 de Agosto de 1926. Que o espanhol foi beatificado, belamente, por o Papa Clemente X ( 1670 – 1676 ), no dia 25 de Janeiro de 1675. Notícia fasta e feliz: a 21 de Março de 1952 ele foi proclamado, providencialmente, Patrono dos Poetas de língua Espanhola, a ele não podia, María Ángeles (Valladolid, 22/ 06/ 1967), no modo e na mente, ficar indiferente. E louvamos, em São João, a «Alêtheia», dessarte, selecta e mariana. O major, maior Poeta, da língua castelhana…………………………………………………………………………………………………………
III
No período da Grande Guerra, em selecto Modernismo, a vanguarda é deveras em todo o mundo culto. Actuando ao mesmo tempo que Vicente Huidobros, surde e surge, em Portugal, o Movimento Modernista. Seus precípuos actores eles foram, de feito, Fernando Pessoa ( Lisboa, 13/ 06/ 1888 – Lisboa, 30/ 11/ 1935 ), Mário de Sá-Carneiro ( Lisboa, 19/ 05/ 1890 – Paris, 26/ 04/ 1916 ) e José de Almada-Negreiros ( S. Tomé, 07/ 04/ 1893 – Lisboa, 15/ 06/ 1970 ). Consubstanciado, o Movimento, em 1915, nos dous números de «Orpheu, Revista Trimestral de Literatura». Ou melhor: «Orpheu I» foi dado a lume em 24 de Março de 1915 e, solerte e selecto, vai para as bancas, o «Orpheu II», em 28 de Junho desse mesmo amado ano. Se o primo «Orpheu» tinha, como Directores, Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, no «Orpheu II» brilhavam, como responsáveis, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Pois para o Mestre Almada simbolizava, a geração do «Orpheu», «o encontro das letras e da pintura». E vindo na sequência das escolas, pessoanas, do paulismo, do sensacionismo e, ademais, do interseccionismo, eis que surdem, aqui, os Numes e os nomes de Alfredo Guisado, Raul Leal e, açoriano, o Armando Côrtes Rodrigues. Que, em 1915, Almada escreveu, ainda, «A Cena do Ódio», um dos poemas mais fortes do século XX lusitano. E precursor, solertemente, do Surrealismo. Da Autoria de Almada, em 1916, um texto, depois disso, de água primeira ele foi, de feito, o Manifesto Anti-Dantas. Revertendo ao belo «Orpheu», se esgota o número 1 e vende, o segundo, 600 exemplares. A revista dos «engraçadinhos» do Chiado é recebida, nos jornais, com risota, dichotes e dicacidade. Referindo-se à «literatura de manicómio», aduz e diz, a imprensa, que «Os bardos de Orpheu são doidos com juízo». Que a talho de foice, acerta e disserta, no «Fedro», o perene Platão ( Atenas, 428 / 427 – Atenas, 348/ 347 a. C. ): Poeta não tocado por a «divina loucura» ele não é, de feito, um Poeta de prol – e com Arístocles concorda, de facto, o estrénuo Estagirita ( Estagira, 384 – Cálcis, 322 a. C. ). Um reparo aqui porém: para o discípulo de Sócrates, essa amência não é clínica, mas ela é vinda, deveras, dos deuses. Que o Poeta, para Platão, ele recebe dos deuses, para aos homens dadivar, ele é medianeiro entre os homens e os Numes. O n.º 3 do «Orpheu», no lance e no lai, não chegou a vir a lume, pois Carlos Augusto de Sá-Carneiro ( Lisboa, 26/ 05/ 1871 – Lisboa, 06/ 06/ 1952 ), o Pai, autoritário, do Autor de «Indícios de Oiro», se refusou a pagar, novamente, a conta, exorbitante, da tipografia. Mas, mesmo assim, Álvaro de Campos viu, publicadas, duas Odes miraculosas: a «Ode Triunfal», no Orpheu I, e, munificente, a «Ode Marítima», no segundo Orpheu. Esta última considerada, por Adolfo Casais Monteiro (Porto, 04/ 07/ 1908 – São Paulo, Brasil, Julho de 1972), «um dos mais geniais poemas de qualquer época da literatura universal.» Ratificando, Eduardo Lourenço ( São Pedro de Rio Seco, 23/ 05/ 1923 – Lisboa, 01/ 12/ 2020 ), ao dizer que ela é «um dos mais grandiosos e profundos poemas de que pode orgulhar-se a língua portuguesa». E se encerra, o Movimento, em Novembro, nitente, de 1917, com o «Portugal Futurista» e providencial. Que abarcava, ou abraçava, os fanais, e os faróis, de Santa Rita Pintor, José de Almada-Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Appollinaire, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Raul Leal , Álvaro de Campos e Blaise Cendrars. E como não podia deixar de ser: pouco depois de ser posto à venda, o primeiro e único número do magazine ele foi, adrede, apreendido por a Polícia. Sendo dirigida, essa revista, por um aluno de Belas-Artes, Carlos Filipe Porfírio ( Faro, 29/ 03/ 1895 – Faro, 25/ 11/ 1970 ), que foi Poeta, cineasta, pintor e actor. Vale a pena aqui citar: o «Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX», da Autoria de Almada, ele termina como segue: «O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades.» Em prol, aqui, do nacionalismo cosmopolita surde e surge, na verve, o «Ultimatum», de Álvaro de Campos. E flama e exclama, em 1917, o «Manifesto Futurista da Luxúria», de Valentine de Saint-Point ( Lyon, 16/ 02/ 1875 – Cairo, 28/ 03/ 1953 ). Mas não leixemos no oblívio: a introdução oficial do Futurismo em Portugal, ela se deu, de feito, a 14 de Abril de 1917 – e ela foi, de facto, no antigo Teatro República, que é hoje, sem jaça, o Teatro Municipal de São Luiz. Organizada, a conferência, por Almada, e por a verve de Santa Rita, se leram textos, além doutros, ali, do Poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti ( Alexandria, 22/ 12/ 1876 – Bellagio, 02/ 12/ 1944 ), ele tinha lançado, no jornal francês «Le Figaro», seu «Manifesto Futurista», a 20 de Fevereiro de 1909. Ora sus, preste e pronto, e muita Alma para a viagem. No culto cristiano há dous significados para o termo «criacionismo», e deles tratemos, então. Significa, em primo lugar, que Deus criou o mundo «ex nihilo», que Deus, portanto, criou do nada e sem recurso a qualquer matéria preexistente; isso é o que figura no bíblico Génesis. Em segundo, e sagrado lugar, a Alma humana é criada imediatamente por Deus e infundida, genesicamente, no corpo; é que a Alma de cada pessoa é criada no momento, mavioso, em que esta é concebida. E essa doutrina, medieval, foi difundida, ou defendida, por S. Tomás de Aquino ( Roccasecca, 1225 – Fossanova, 07/ 03/ 1274 ), o Autor, acareado, da «Suma Teológica». O terceiro significado do vocábulo «criacionismo» se entronca, forte e firme, na Cultura Portuguesa. O caso e a causa é portanto a seguinte: Leonardo Coimbra ( Lixa, 30/ 12/ 1883 – Porto, 02/ 01/ 1936 ), filósofo e Poeta, ele concorre, em 1912, ao lugar de Professor do grupo de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, apresentando «O Criacionismo ( Esboço de Um Sistema Filosófico )» como dissertação. Por manifesta incompatibilidade com o júri, foi submetido, o jovem Leonardo, ao vexame e ao exame, e seu projecto, portanto, foi gorado. O nome do professor que adrede o reprovou ele era, deveras, Joaquim António da Silva Cordeiro. Mas em 1915, no ano mesmo da revista «Orpheu», ele dá a lume, liberrimamente, «O Pensamento Criacionista». Como político, Leonardo foi eleito, por duas vezes, para o cargo de Ministro da Instrução Pública. Fundando, em 1919, a Faculdade de Letras do Porto, onde foi Professor, ou professou, de 1919 a 1931. E tendo como discípulos, entre outros, Agostinho da Silva, Delfim Santos, Sant’Anna Dionísio, José Marinho, sem jaça, e Álvaro Ribeiro. Ao lado de Jaime Cortesão e de Teixeira de Pascoaes, ele foi, em 1912, um dos iniciadores do movimento da «Renascença Portuguesa», de que seria, «A Águia», o órgão promotor. E foi n’ «A Águia» que se estreou o filósofo e Poeta Fernando Pessoa (Lisboa, 13/ 06/ 1888 – Lisboa, 30/ 11/ 1935). Finalmente e alfim, a filosofia, aqui, é o «órgão da liberdade», «o homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer.» Ou melhor: criado à imagem de Deus Pai, o homem só será livre quando criar o mundo, ideal, à medida do seu sonho: ora isto mesmo pensavam Unamuno ( Bilbau, 29/ 09/ 1864 – Salamanca, 31/ 12/ 1936 ), no estro, e, nas artes, Agostinho da Silva (Porto, 13/ 02/ 1906 – Lisboa, 03/ 04/ 1994). Fazendo parte, o Criacionismo, do chamado não-cousismo. O considerar o real como coisa ele é, de feito, uma antifilosofia, pois o real, em vez de cousa, ele é ser, premente, ele é vida senciente. Sendo Cristo, segundo Leonardo, o descousificador de todalas cousas, aquele que nos releva, afinal, enquanto pessoas. E se Cristo descousifica, o nosso culto pra com Ele será um «rapport» de pessoa pra pessoa. Ou seja: em demanda do Ser, o Eu, cá na terra, anela o Outro, que é Deus……………………….
IV
Ao fazermos este escorço, alembramos, levemente, a «Senhora da Noite» ( 1909 ), de Teixeira de Pascoaes ( Amarante, 02/ 11/ 1877 – Gatão, 14/ 12/ 1952 ). Arquivemos, aqui, a arqueologia do Ser: a primeira edição das obras completas de São João da Cruz ocorreu, cordialmente, em Alcalá, no ano selecto de 1618, e teve, como protagonista, Diego de Salablanca. Fronde e fruto, agora, do meu subconsciente, ou, então, Efeito-Tele: a 22 de Junho de 1580 o Papa Gregório XIII ( 1572 – 1585 ) assina um decreto intitulado «Pia Consideratione», e nele autoriza, os Carmelitas Descalços, a constituírem província autónoma, governada, cautamente, por um provincial da sua própria regra. E como ninguém é profeta em sua terra ( Lc, 4: 24 ), em 1618 as Obras do Santo foram denunciadas, debalde, ao Santo Ofício. Pois baseado num desenho do místico espanhol, depois e depós uma revelação, em 1951 pintou regiamente, o Salvador Dalí ( Figueres, 11/ 05/ 1904 – Figueres, 23/ 01/ 1989 ), o «Cristo de São João da Cruz». E ora muito e muito bem. Nos fiquemos, à guisa de epílogo, com um belo pensamento do Poeta maior: «Onde não há amor, põe tu amor, e tu amor encontrarás.» É Belo, é beletrista, ele é bondoso, deveras, e Paz, na terra, pra todos os homens………………………………………………………
Tomar, Cidade Templária, 04/ 06/ 2026
DAT ROSA MEL APIBUS
DEUS, LUZ E LIBERDADE
PAULO JORGE BRITO E ABREU

