EDUARDO ROCHA


Certas músicas parecem nascer do silêncio; outras são arrancadas dele, como uma chama que alguém tentou apagar logo no início. O Estudo Op. 2 n.º 1 de Alexander Scriabin pertence a este segundo grupo. Trata-se de uma obra precoce, mas longe de ser ingénua. Guarda algo de surpreendentemente antigo, como se o jovem compositor carregasse uma dor com séculos de peso.

.
Logo nos primeiros compassos, a música avança junto ao abismo. Sem gritos ou exigências, prefere confessar. O lirismo vem de uma voz hesitante, quase frágil, que mede as frases antes de exprimir o que sente. Sob essa contenção corre uma força subterrânea. A melodia sobe devagar, em busca de luz após uma noite longa, para logo a seguir recuar para a sombra, como uma vaga luminosa devolvida pela escuridão.

.
Esse movimento de subida e descida funciona como uma respiração contínua. Cada subida sugere uma tentativa de libertação e cada descida lembra os laços que ainda prendem a alma ao chão. Não há aqui um triunfo claro nem uma rendição total. A melodia faz da própria queda um impulso para voltar a subir. A sombra não apaga a luz, alimenta-a.

.
O dramatismo da peça nasce deste atrito constante. O Estudo parece delicado de mais para enfrentar o mundo exteriore, em simultâneo, grandioso de mais para aceitar a derrota. Em certas passagens, a música parece ceder, como um corpo ferido que perde o apoio. Mas, no momento em que tudo parece perdido, ergue-se outra vez. Fá-lo sem aparato heróico, apenas com a firmeza de quem já olhou o abismo de frente e perdeu o medo.

.
Scriabin era muito jovem quando a compôs. Ficava ainda distante a fase visionária em que procuraria novas harmonias, cores sonoras e uma transcendência mística. O compositor estava apenas a definir a sua voz. É provável que essa busca justifique a intensidade da obra, que soa como o testemunho de alguém que ainda desconhece o futuro, mas já intui a exigência do seu percurso.

.
A peça funciona como um presságio. Mais do que antecipar o estilo maduro de Scriabin, revela a sua intenção central: converter o sofrimento numa matéria superior. A tristeza vira linguagem e a vulnerabilidade ganha força expressiva. A dor deixa de ser um limite para se tornar numa passagem. O jovem compositor percebe que não consegue travar a noite, mas pode trabalhar a sua escuridão até extrair dela alguma luz.

.
Há também um carácter quase ritual neste Estudo. Mais do que contar uma história, a obra parece conduzir uma cerimónia privada. Cada frase assume o tom de uma invocação e cada regresso ao tema soa como uma confissão. O piano deixa de ser um mero instrumento acústico e passa a servir de espaço íntimo, onde a dor é exposta, examinada e transfigurada.

.
O valor da partitura está nessa tensão. A música não declara vitória sobre o destino, apenas lhe resiste. É esse combate, e não o desfecho, que lhe dá fôlego. O heroísmo aqui não consiste em derrotar um adversário exterior, mas em manter o canto vivo apesar da ferida.

.
No final, quando as notas se recolhem sobre si mesmas, o ambiente já não é o mesmo do início. A dor continua presente, mas passou pelo filtro da música. A descida revelou-se indispensável para aceder a uma profundidade que a superfície, por si só, não alcançaria.

.

O Estudo Op. 2 n.º 1 constrói uma narrativa densa num formato breve. Dispensa tempestades sonoras ou gestos bombásticos. Bastam-lhe um desenho melódico ondulante, o contraste entre sombra e clareza e uma recusa firme em calar a voz interior.

.
O centro da obra resume-se a isto: Scriabin não tenta anular a dor, aprende a fazê-la cantar.

.
É nesse registo contido que o compositor descobre o princípio que nortearia a sua arte: a capacidade de transformar a ferida em transcendência, a queda em revelação e a solidão numa luz própria.